Da Natureza das Coisas
#designexhibition
DA NATUREZA DAS COISAS
projeto expográfico . IVIE C. ZAPPELLINI
artista . PABLO LOBATO     curadoria . CLARISSA DINIZ     
assist. curatorial e artística . CLARICE G. LACERDA     design gráfico . RAFAEL CAMISASSA     
fotografia . TIAGO NUNES | MARCELO REGUA     cenotécnica . KF20
     projeto-construção . 2016     localização . MUSEU DE ARTE DO RIO | RJ BRASIL
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O desenho da exposição Da Natureza das Coisas começou com uma lenta e atenciosa escuta dos trabalhos de Pablo Lobato em busca de elucidar seus mecanismos de criação e fazê-los transbordarem para o espaço expositivo, como se este fosse também obra. 
Clarissa Diniz, a curadora, destaca a evocação como seu procedimento artístico principal: uma forma de manter a sensibilidade aguçada e flutuante, uma abertura ao imanente do por vir. Através da tríade olhar-gesto-corte, Pablo apropria de situações pré-existentes e promove intervenções singelas na natureza das coisas. O corte como poda (redução que amplia). O gesto como manipulação discreta, que liberta movimentos e sentidos de experiências ordinárias e residuais. Promovendo assim novos olhares, outras perspectivas.
A expografia se desenrola então como tradução livre dessas estratégias de evocação de Pablo, condensadas pelo conceito de infra-mince (criado por Marchel Duchamp): uma ação desapercebida, quase invisível de uma matéria sobre a outra, uma zona de sombra, de um tempo entre-dois, de um murmúrio secreto, do vestígio, da troca mútua; como a lateralidade de uma folha de papel, por mais ínfima que ela seja. Um estado latente da experiência estética através da micropercepção. Procurei assim uma escuta sensível da galeria, de grandes dimensões horizontais e verticais, com seus pilares ritmados e dissonantes no meio do espaço. E investiguei formas de levar esses gestos silenciosos para os suportes expográficos.
De maneira geral, as obras se acomodaram no espaço através de um jogo de pontos de fuga para o olhar, em que uma direciona à outra. Logo na entrada, encontramos o projetor 16mm do Mil vezes um, mas não vemos a imagem que ele projeta. Ao adentrar um pouco mais, ainda temos que buscar saber qual é a imagem, pois vemos apenas a lateral de seu suporte. O painel em L que abriga a obra é baixo e procura ser o menos volumoso possível, chegando à mínima dimensão na lateral que aponta para a porta. Como recurso visual para fazê-lo ainda mais mínimo, o acabamento é feito em camadas de materiais diferentes: a estrutura é de chapa metálica dobrada em perfil C revestida de compensado com as camadas da madeira aparentes.  
Outro painel em forma de V, alto, abraça um dos pilares para abrigar Castell de um lado e Nascente do outro. Esse gesto de abraçá-lo sem fazê-lo sumir também foi uma forma de não torná-lo volumoso levando ao mínimo suas dimensões laterais. O vértice do V, apontado para a entrada e com as mesmas soluções de acabamento que o painel em L, cria outro infra-mince e dá fluidez à galeria. O lado aberto do V permite ver o pilar integralmente, mas não podemos acessá-lo.
A posição dos painéis na galeria como um todo delimitou áreas mais sombreadas e outras mais iluminadas, de acordo com as características de cada obra. Os vídeos se concentraram nas zonas escuras e as esculturas ou imagens nas zonas mais claras. Cada elemento arquitetônico da galeria - pilares, paredes, painéis - recebeu uma tonalidade diferentes de cinza, com diferenças muito sutis, evitando-se sistematicamente o branco. 
A iluminação natural foi um importante elemento desvelador do espaço. As cortinas brancas das janelas das quinas foram mantidas para entrar uma luz suave e difusa. Na janela diagonal à porta, projetamos o Bronze Revirado, uma imensa imagem de um sino que é tocado em momentos ritmados e toma toda a sala, como um ritual, abaixando o blackout da janela para melhor qualidade da imagem. Perto da outra janela, posicionamos os Quadrados, "girafas" esculturais de madeira fina e esguias.
A iluminação natural que entra pelo Remanso também é uma estratégia-convite à micropercepção. Pensada em conjunto com o artista, como obra, o gesto de cortar a segunda pele de parede da galeria procura questionar o "cubo branco" e revelar o avesso, o que está entre as janelas do edifício antigo e a parede de metalon e mdf. Cria uma fissura para o olhar, mas não proporciona passagem ao corredor técnico. Feito para assentar e folhear o livro Rua e também para incentivar outras perspectivas da exposição, um olhar mais baixo e demorado. Através de um corte mínimo e preciso, como uma dobra, deixa os materiais constituintes aparentes e adiciona poucos elementos com a mesma linguagem estética. 
Crítica de Luisa Duarte publicada no Jornal O Globo - 20 junho 2016


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