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Redeeming the origins of Serralves through the eyes of a character who had spent part of his childhood going to the park long before it became a … Read More
Redeeming the origins of Serralves through the eyes of a character who had spent part of his childhood going to the park long before it became a center of contemporary art. After many years away, he returns and realizes that after all the park has lost some of its purity and tries to recreate the memories he had of his youth. Read Less
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cheiro de chuva, terra molhada
vento cinzento, pele gelada
vê lá ao longe aquela estrada?
é de onde eu vim, é de onde eu vim
vens lá de longe? daquela estrada?
então conta pra mim

noite cerrada, luz apagada
janela aberta, longe de casa
vê lá ao longe aquela estrada?
é de onde eu vim, é de onde eu vim
vens lá de longe? daquela estrada?
então conta pra mim

sinto falta, sinto nada
sinto tanto, mas tenho calma
vê lá ao longe aquela estrada?
é de onde eu vim, é de onde eu vim
vê lá de longe aquela estrada?
lá está a minha raíz

por este chão andei
e nestes montes, prados e serras
vivi a minha paz
conheci os meus temores
sonhei os meus amores
sofri as minhas perdas
chorei as minhas dores

sangrei as minhas feridas
colhi muitos valores

por este chão andei
por este mesmo chão
onde hoje piso
mas não mais com os pés firmes de outrora
não mais com a certeza de quem não erra
não mais

hoje
por este chão ando às cegas
perseguindo aquele que eu fui
procurando aquilo que eu tive
sonhando com um tempo que era só meu
só meu

ingrato tempo
que de uma hora pra outra
sem pestanejar
rouba-te o chão dos pés
este mesmo chão
por onde um dia andei
e por onde hoje ando
a procurar
a procurar

    corri, com o vento gélido e a chuva fina cortante a cair pelo meu rosto
olhei pro céu, lá estava ela, pálida, a iluminar nosso caminho
saudei-a com um uivo frio que rasgou a noite
comigo, meus amigos, meus irmãos, minha matilha
conhecia-os a cada um pelo cheiro
éramos os donos da noite

paramos à beira da clareira
cercada, com os olhos vítreos de medo, estava ela, a nossa presa
olhei para o céu, ainda lá estava a pálida lua, a iluminar nossocaminho
saudei-a mais uma vez
sentia o sangue pulsar nas minhas veias
estava vivo
éramos os donos da noite
e ninguém nos podia parar

    ah, quem me dera poder fechar os olhos e voltar ao passado
assim como voltamos vez por outra a uma ideia tola que persiste em nos
massacrar durante as noites intermináveis de um inverno
interminável

mas esta também é uma ideia tola
e tola é toda ideia até que o deixe de ser

assim também podia deixar de ser esta minha ideia
mas não o é, e quando fecho os olhos tudo o que vejo é só esimplesmente
a escuridão
tola e interminável

é em momentos como este
frente a inexpugnáveis obstáculos
que olho para trás
para enxergar à frente

e sigo

   sete fosse dada a oportunidade de reviver todos os teus momentos passados
pelocusto de sua mais valiosa lembrança, ousarias tentar?

sinto falta dela, da minha flor

eu a queria, ela não sabia
eu a olhava, ela não me via
eu a chamava, ela não me ouvia
mas cantei pra ela mesmo assim
e ao cantar, contei-lhe o meu segredo
e ela ouviu
mas não ouviu
ela viu
mas não me viu
ela soube
mas não quis saber

então a colhi
dei–lhe uma lágrima e disse que partisse
e ela foi

sinto falta dela, da minha flor
depois daquele dia, nunca mais chorei
depois daquele dia, nunca mais a vi
depois daquele dia...

serralves
serra de alves
serra
alva?

não mais

oh velho salgueiro
velho matreiro
ainda recordo-te velho
já naqueles idos tempos
bons tempos
sentiste minha falta, velho amigo?
pois, temos agora tudo mudado
também sentes falta, velho amigo?
Pois, também disso sei
eu
eu
que como tu, velho amigo, também estou sempre
a olhar pra trás, para aquilo que já não mais é

aqui o sagrado e o profano caminham lado a lado
aqui o velho e o novo se encontram
chamam a isso contemporaneidade
conspurcam o solo, sangram as árvores, mancham a virtude que aquiexistia
chamam a isso a arte da terra
como se nesta terra já não houvesse arte suficiente pra ver
feita por sei lá quem e sei lá quando

ah, se eles soubessem o que eu sei
se tivessem visto o que eu vi e vivi
não ousariam eles
ah não

mas sei eu
e vejo, onde agora sangram as árvores
tudo aquilo que antes era
arte da terra

é pena só poder ver

lembras-te de quando caminhávamos de mãos dadas por estes bosques?
éramos grandes entre os grandes, tão altos como cedros
esticávamos as mãos e tocávamos as estrelas

grandes eram também nossos sonhos
repletos de uma inocência pueril
cheios de uma doçura juvenil

mas grandes foram também os nossos passos
tão grandes que nos levaram a caminhosopostos
soltamo-nos e nos deixamos levar por ventos de mudança
e perdidos andamos agora às voltas
tentando retornar ao início
quando juntos, lado a lado, grandes como o tempo
por estes bosques de mãos dadas caminhávamos
lembras-te?

olhe para o céu
agora
o que vês?

vejo pedaços de sonhos cortados
mundos invadidos
universos separados

vejo o branco e o preto
o velho e o novo
o início e o fim

o bom e o mau
o feio e o belo
a mudança e o imutável

vejo tudo isso desvanecer
como um sonho bom
mas que como todo sonho bom
um dia acaba

deixo em cada pedaço desta terra
um pedaço só meu
pendurado por fina e frágil linha
como a fina e frágil linha da vida
que vamos tecendo ao longo do tempo que nos é dado
mas que um dia chega ao fim
tal como a minha chegou
há muito
mas ainda cá volto, sempre que posso
e passo os dias a procurar meus pedaços
e junto-os
para viver novamente tudo aquilo que vivi
um dia

euvejo em pedaços

...e as raízes permanecem