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2012 © BRUNO PAIXÃO All rights reserved.
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Perspectivas de um bairro - A vida na Horta da Areia.
 
Sempre ouvi falar de bairros perigosos em contos com pontos acrescentados, mas sem acrescentar nenhum ponto: perigoso é este bairro, não as pessoas que nele habitam.
O bairro encontra-se degradado, com inúmeros problemas a nível habitacional e ambiental. As pessoas, essas, fazem da necessidade uma inspiração.
 
Situado junto ao Cais Comercial, em Faro, o bairro Horta da Areia surgiu no final da década de 70 com a finalidade de albergar, provisoriamente, famílias oriundas das antigas colónias portuguesas. Actualmente este bairro é constituído na sua maioria por portugueses de etnia cigana, mas também aqui residem muitas outras nacionalidades e etnias e são notórios os diferentes hábitos e estilos de vida que se unem neste mesmo espaço. Um espaço onde um conjunto de 40 fogos pré-fabricados e 25 em alvenaria têm que ser suficientes para abrigar as mais de 250 pessoas que aqui vivem.
 
No bairro, um grupo de ciganas junta-se como de costume todas as tardes para fazerem bordados à mão. Vestidos, saias, blusas... todo o tipo de roupas para vestirem elas próprias ou para fazerem algum dinheiro se encontrarem quem as compre. "As ASAE´s acabaram com as feiras, menino", diz-me uma delas num tom de voz sentido. Na outra extremidade do bairro, no pré-fabricado marcado com o número 6 na porta, vive Manuel Vieira, o artesão dos fósforos como é conhecido na zona. Manuel Vieira, natural de Santarém, diz-me que dedicou toda a vida à jardinagem. Hoje vive com cerca de 274€ mensais de reforma, dos quais 3/4 são gastos na imensidão de medicamentos que lhe abrandam as dores resultantes de várias hérnias. Há 10 anos que foi operado, há 10 anos que vive com 274€ mensais. "Felizmente que a necessidade aguça o engenho", diz-me enquanto faz mais uma das suas esculturas de fósforos com plena noção da estética e arquitectura das suas obras. "Esta foi mesmo uma arte trazida pela necessidade", frisa novamente enquanto cola os últimos fósforos num monumento de homenagem a Nossa Senhora de Fátima. "Já está, depois faltam 4 ou 5 demãos de verniz", continua. Manuel aproveita os vários materiais que vai encontrando por onde passa, "estas baterias e lâmpadas vou recolhendo dos brinquedos que os ciganinhos vão deitando fora". O barulho da televisão em muitos dos dias é a sua única companhia. Sua e do "Mestre-Zé", um antigo pescador que perdera o barco para as Finanças e hoje reside noutro destes pré-fabricados, provisorios, sublinho.
 
O bairro é feito destas histórias. Respira tristezas e maus amores. É um reflexo simples da necessidade. Mas como tudo na vida, também aqui existe um lado positivo. E o lado positivo deste bairro nada tem que ver com a sua proximidade à Ria Formosa ou aos lindos flamingos que por ali se deixam ver. Não, o lado positivo deste bairro tem um nome: Resiliência.
A Resiliência é um conceito psicológico definido como a capacidade de um indivíduo lidar com problemas, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas. Este é um bairro cheio de resilientes. Porque a verdade é que onde a sociedade vê marginais ou coitadinhos podemos ver, isso sim, os mais talentosos poetas e pintores, escultores e futebolistas, carpinteiros, agricultores e pescadores, todos eles... mágicos da multiplicação. Criar plataformas de apoio real à magia que este povo faz não seria apenas um acto de solidariedade, seria sobretudo um acto inteligente.
E que melhor forma de terminar este prefácio do que citando "Roda Jones", um rapper com fortes ligações ao bairro; "... depois vejo terceiros, falam-me em oportunidades, mas oportunidades ´tão como o sistema; é pra familiares e enteados! Eu sei que não sou correcto, mas qual dos dois tá mais errado?! Quando a tua solução prós meus é fechados ou enterrados!"
 
Bruno Paixão,
Faro, 09 de Maio de 2012.
Neighborhood Prospects - Life on Horta da Areia.
 
I have always heard of dangerous communities in exaggerated tales, but with no exaggeration: this is a dangerous neighborhood, not the people that live in it.
The neightborhood is degraded with many housing and environmental problems, but the people transform their needs into an inspiration.
Located in the vicinity of the Commercial Port of Faro, the Horta da Areia community appeared in the late 1970´s in order to house, temporarily, families arriving from the former Portuguese colonies. Today the community is mostly formed by Portuguese Gypsies but also by many other nationalities and ethnicities where different habits and life-styles unite at the same site. A set of about 40 prefabricated houses and 25 of brick have to be enough for the more than 250 people living there.
 
A group of gipsy women meet as usual every afternoon to embroider. Dresses, skirts, blouses... every kind of clothing to dress themselves or to make some money from a possible buyer. "The Food and Economic Security Authority terminated the fairs, my boy", says one of them. On the other side of the neighborhood, in a prefabricated house, nr.6, lives Manuel Vieira, nicknamed The Artesão dos Fósforos (Artisian that works with matches). Manuel Vieira was born in Santarém and dedicated most of his life to gardening. Today he receives a 274€ monthly pension, spending 3/4 of it on medication that slows down the pain from the various hernias he have. He was operated ten years ago and has lived like this for 10 years now. Nevertheless, he makes sculptures with matches and has the perfect notion of his works aesthetic and architecture. "It was an art brought by need", he says while gluing the last matches in monument dedicated to the Virgin of Fátima. "And it´s done, then 4 or 5 layers of varnish", continues. Manuel uses other several materials that finds as he walks "I collected these batteries and lamps from the toys thrown away by the gypsy kids". The noise coming from the TV is his only company on most days. His and Mestre Zé, a former fisherman who lost his boat to the IRS and today resides in other of these prefabricated... temporary, I underline.
 
The community is made of these stories. It breaths sorrows and failed loves. It is the simple reflection of neediness. However, like everything in life, there is a bright side of it. And the bright side of this community has one name: Resilience.
 
The Resilience is a psycological concept, defined as the skills of an individual to deal with problems, overcame obstacles or resist to the pressure lived in adverse conditions. This community is full of resilient members. And truth be told, where society sees delinquents or helpless people, we can truly see the most talented poets and painters, sculptors and footballers, carpenters, farmers and fishermen, all of them... magicians of the multiplication. Imagine a society that creates solid platforms for these people, that would be a good vision and especially a smart one.
There is no better way concluding this preface than quoting "Roda Jones", a rapper with strong connections with this neighborhood and this community, "Then I hear people talking about oportunities, but oportunities are like the whole system: they are meant for the family and friends of the ones that control the system! I know that Im not correct, but which of us is more wrong?! When your solution to my family is closed or buried!"

Bruno Paixão,
Faro, May 9, 2012.