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ALL OF MY WORKS ARE SUBJECT TO COPYRIGHT LAWS. DO NOT USE WITHOUT WRITTEN CONSENT CONTACT: joseferreiraphoto@gmail.com "Ninja" Documentary Project Photography: José Ferreira Video by: José Ferreira/Post Productions by: David Marques Text by: Catarina Mira(catarinadsmira@gmail.com) text Translated by: Mariana Luz(mariana.mluz@gmail.com) and Jenny Chick(chickjenny@hotmail.com) Special Thanks Nuno Silva Ninja could be an ordinary nickname for a 42 year old man, except that this guy has been a drug addict for 20 years. Nowadays he lives in Olhão, in an abandoned house, that looks like paradise to him, especially when compared to the several cells, which he lived in over the last two decades. He allows lots of people in his house, people like him… he’s had many women, but the only one that he truly loves is called Heroin. From every corner of his house there are stories growing… stories of some other life that permeate the emptiness of his life. Down the hall, the stairs might suggest a terrace and from this terrace with Olhao as his backdrop, every day, come rain or shine, he washes his body in an outdoor, improvised bathroom... but his soul has not been cleansed for years. In an old sink, unwashed dishes pile up. It is off them that he eats the food that the charity of neighbours provide him with. But the truth is that he rarely feels hungry. His handsome face has long gone and faded into his veins. The beard and the rebel hair disguise the marks of age and addiction. The skinny, yet defined body is the only trace of the martial arts that he once practised. His ego is wrecked and I can see shame through his eyes. He wears some brown trousers, his favourites, maybe because they are the only ones that he possesses. They hold his fragile body with a belt that he had found somewhere. Immune to the cold he exposes his torso, where his tattoos symbolize a permanent reminder of a time when dreaming was allowed – they are now fading as much as his lucidity. Without any permission he took this place as his home about a year ago. The first room is really tight, barely possible to walk in. On one of the walls, there is a hanging picture of The Virgin Mary and two scarves of the national football team. On another wall, there is a round clock showing the correct time; however, for Ninja his time is measured by his next fix. Ninja’s table is like a little Babylon. Syringes, broken mirrors, lighters, condoms, ashtrays overflowing with cigarette butts, plastic bottles and a razor, these all make up the decor of his table, where the owner sits, always and without fail facing the door. He has inherited habits from someone that doesn’t like surprise visits from the authorities. Ninja does not dissimulate; he is completely honest about his crimes and his addictions. He lived nearly twenty years behind bars, where the sun lurked but didn’t shine. He knew almost every prison in the country. He has a blurred memory and often visiting the past is a painful exercise. He squints and thickens the tone of his voice whenever his time in prison is invoked. At night, when it’s really dark he drowns in chilling nightmares…which are always the same: he’s dragged into the dark by some narrow corridors, he’s violently stabbed in fights with other prisoners; in the bathroom he feels really sickened by the rapes; they submit him; the silence and the loneliness are deadly diseases. So he always wakes breathless, sweaty and anxious. There is no electricity in the house. Ninja doesn’t like sleeping in the bedroom, so he sleeps in the living room, because there he can see the backyard and feel the breeze that blows at night … there, he feels safe from the ghosts that haunt him. He sighs, he searches for sleep again and again; his sleep is always fitful. He lives in debt and the interest is too high. He barely remembers the first time that he tried heroin. He searches for the memory of that moment, but still it is a little cloudy. He said that they had been dating for almost half his life, but she betrayed him from the first day, when they first met and he had smoked her. He didn’t keep the memory of the “first kiss”, instead he remembers the sickness that came upon him and how he felt really bad. From then on he felt even worse when she was not around. It was a relationship of: neither with you, nor without you. Her absence gave him cramps, chills, terrible pain all over his body. He tried other partners: pellets, grass, cocaine… but for none he had fallen so hard. It was an unconditional love! He spent his days thinking of ways to find her and ease his pain. She prevents him from loving anything else. Kills his dreams and desires. Wants him only to want her, but has other lovers… Some of them even invade Ninja’s house to taste her with him; others just look for the privacy that the street doesn’t provide. Few are the ones that can set themselves free. Heroin is their lives. The visits are short. Those lost souls have nothing; sometimes not even their names, just a nickname… just a whisper for what they answer to. They come in with one and only guarantee. They’ll come back. They’ll always come back, day after day, night after night, week after week, life after life. Here, rituals are everlasting. It’s time for fun. Normally he shoots just one dose, but sometimes he risks two. He is not afraid of dying! Automatically he sticks the syringe into his vein and never stops talking. He does that with a frightening spontaneity. Respecting the slowness of the process which the ritual requires, he empties his syringe. When that process ends, Ninja refills the syringe sucking the blood of the vein and then shoots it into his body again. Now he is finally at peace. -------------------------------------------------------------------------------- Ninja tem 42 anos e é toxicodependente há 20. Hoje em dia vive em Olhão numa casa abandonada que, para ele, se assemelha a um paraíso quando comparada com as celas por onde passou ao longo de duas décadas. Recebe em casa muita gente, gente como ele. Teve muitas mulheres mas só a uma é fiel: à sua heroína. Dos cantos da casa brotam histórias feitas em estilhaços. Histórias com gente dentro, retalhos de outras vidas que inundam o vazio da sua. É delas colecionador. Ao fundo o corredor. Umas escadas deixam adivinhar o terraço. É dali, com as açoteias de Olhão como cenário, que todos os dias quer faça sol, quer faça chuva, numa espécie de casa de banho improvisada ao ar livre que lava o corpo. A alma, há muito que o deixou de fazer! Num velho lava-loiça apinham-se pratos e talheres necessitados de uma lavagem. É neles, que depois de uma “lambidela” de água serve as refeições que a caridade dos vizinhos permite. Na verdade come pouco. Raramente tem fome. A sua cara de menino bonito, foi-lhe o tempo esmorecendo pelas veias adentro. A barba e o cabelo rebeldes disfarçam as marcas da idade e da dependência. O corpo seco e definido é o único vestígio das artes marciais que praticou. Tem o ego destroçado, e vergonha é a leitura que retiro do seu olhar. Veste umas calças de um castanho terra, as suas favoritas, talvez por serem as únicas. Sustenta-as no corpo ressequido com um cinto que encontrou algures. Imune ao frio exibe o tronco nu, onde tatuagens, símbolos indeléveis de um período em que sonhar era permitido, estão tão embaciadas quanto a sua própria lucidez. Sem qualquer autorização apoderou-se há cerca de um ano daqueles muros decadentes que em tempos viram uma casa. A primeira divisão é apertada, mal se consegue andar nela. Numa das paredes, um quadro de uma qualquer Nossa Senhora e dois cachecóis da selecção nacional são a minimal decoração daquela parede rachada. Noutra, há um relógio redondo. As horas estão certas, mas para Ninja o tempo mede-se apenas pelo do próximo chuto. A mesa de Ninja é uma pequena babilónia. Seringas, espelhos partidos, isqueiros, preservativos, cinzeiros a transbordar de cinza, pontas de cigarros, garrafas de plástico e uma navalha compõe o décor daquela peça de mobiliário onde o seu dono se senta sempre, mas sempre, de frente para a porta. Hábitos herdados por quem não acha graça a surpresas das autoridades. Ninja desnuda-se de preconceitos. Assume vícios e crimes. Viveu durante quase vinte anos atrás das grades por onde o sol espreitava sem nunca brilhar. Conheceu praticamente todas as cadeias do país. Tem a memória turva e revisitar o passado é, às vezes, um exercício doloroso. Semicerra os olhos e engrossa a voz quando invoca o tempo de cárcere. À noite, quando a noite se faz verdadeiramente noite, afunda-se em pesadelos de arrepiar. São sempre iguais. É arrastado no escuro por estreitos corredores. Golpeiam-no com facas em lutas com outros condenados. Na casa de banho enoja-se com as violações. Submetem-no. O silêncio é um rugido que nunca chega a ser escutado. A solidão é uma doença mortal. Acorda sempre esbaforido, suado e ansioso. Não há luz eléctrica naquela casa. Ninja dorme na sala, não gosta de dormir no quarto. De lá vê o quintal e sente na face a brisa que à noite sopra. Sente-se a salvo dos fantasmas que o perseguem. Suspira. Procura o sono de novo. Vai dormindo aos soluços. Vive a prestações, com juros demasiado altos. A primeira vez que experimentou a heroína já mal se recorda. Vasculha na memória esse momento, mas este é pouco perceptível. Diz que namoram há mais de meia vida, mas que ela o trai desde o primeiro dia. Quando se conheceram, fumou-a. Não guarda a sensação do beijo apenas do vómito que de si se apoderou. Sentiu-se mal. Passou a sentir-se pior ainda quando a não tinha por perto. Era uma relação de: nem contigo, nem sem ti. A sua ausência provoca-lhe espasmos, arrepios e dores infernais pelo corpo. Experimentou outras parceiras: a pastilha, a erva, a cocaína…mas por nenhuma se apaixonou desta maneira. É um amor incondicional! Passa os dias a pensar na forma de se encontrarem para que ela se entranhe no seu corpo e lhe abrande o sofrimento. Ela proíbe-o de amar o resto. Assassina-lhe os sonhos e a vontade. Quere-o só para si mas tem outros amantes. Muitos mais aliás. Outros “Ninjas”! Alguns visitam-no para a provar com ele. É a heroína das suas histórias que até pelo nome mente. As visitas são breves. Aquelas almas-penantes nada têm de seu, às vezes nem nome, apenas uma alcunha, apenas um ruído pelo qual que respondem. Entram e saem só com uma certeza em jogo. Voltarão. Voltarão sempre, dia após dia, noite após noite, semana após semana, vida após vida. Rituais aqui são perpétuos. Está na hora do “caldo”. Ninja, por norma, injecta uma dose apenas, mas às vezes arrisca dois pacotes. Não há medo de morrer. Mergulha a seringa na veia sem suspender a conversa. Fá-lo com uma naturalidade assustadora. Respeitando a lentidão que o ritual requer vai esgotando a heroína da seringa. Quando esta se extingue Ninja volta a preenchê-la sugando o sangue que corre pela veia eleita, no final devolve-o ao corpo pela mesma via. Agora sim, está em paz. Read Less
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