Lisboa monótona

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  • "Nas nossas ruas, ao anoitecer,
    Há tal soturnidade, há tal melancolia,
    Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
    Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.
     
    O céu parece baixo e de neblina,
    O gás extravasado enjoa-me, perturba;
    E os edifícios, com as chaminés, e a turba
    Toldam-se duma cor monótona e londrina.
     
    Batem os carros de aluguer, ao fundo,
    Levando à via férrea os que se vão. Felizes!
    Ocorrem-me em revista, exposições, países:
    Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!
     
    (...)
     
    E evoco, então, as crónicas navais:
    Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
    Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
    Singram soberbas naus que eu não verei jamais!
     
    E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
    De um couraçado inglês vogam os escaleres;
    E em terra num tinir de louças e talheres
    Flamejam, ao jantar, alguns hotéis da moda."
     
     
    Sentimento de um Ocidental,
    Cesário Verde