A DAMA DO MAR (BRA)
Como sempre parti do cenário que para mim é a arquitetura que está entre o que vejo e o que ouço. Comecei a imaginar a luz, claro e escuro, porque sem luz não há história. O naturalismo de Ibsen?
Eu não o amo. O meu teatro é anti-naturalista, mas no meu trabalho o sobrenatural pode se transformar repentinamente em natural: o que me tocou neste texto é uma luz contínua que é atingida por uma linha de tempo sobrenatural. A beleza está no modo pelo qual esses dois mundos se chocam.
 
ROBERT WILSON
 
“(...) A adaptação ou reinvenção de peças canônicas constitui uma das maiores práticas do teatro. Tradicionalmente, este tipo de trabalho tem sido feito na forma de novos textos: desde as versões de Dryden para Antonio e Cleópatra e Tróilo e Créssida de Shakespeare no século XVII até, no nosso tempo, as poderosas reescrituras de dramas gregos por Jean Giraudoux, Heiner Müller e Seamus Heaney. Mais comumente nas últimas décadas, com a ascensão do teatro dominado por autores-diretores é o diretor quem sem de fato reescrever o texto de uma peça famosa (ainda que às vezes resumindo), propõe mudanças fundamentais na história através de novas inflexões dos personagens ou de cenários abstratos ou transpostos de modo radical – tudo isto sobreposto ao “mesmo“ texto. A justificativa para tais procedimentos, seja do dramaturgo ou do diretor, é que um teatro de validade perene só tem a ganhar ao ser revisto por uma nova sensibilidade, e é provável sentir mais relevante para um público contemporâneo.
Este não é o caso na minha reescritura de A Dama do Mar (1888). Aqueles familiarizados com a peça de Ibsen notarão que, ainda que A Dama do Mar siga o esquema geral do enredo e use seis dos seus oito personagens principais, mais da metade do texto é nova, os personagens foram nitidamente modificados, elementos essenciais da história (como a história pregressa do Estrangeiro) foram eliminados, o ritmo e o método de exposição dramática são diferentes, e o final foi alterado. O propósito de tamanha quantidade de alterações não foi cavar de dentro da história de Ibsen uma versão que parecesse mais plausível, ou mais relevante, para o público de hoje. Eu escolhi alterar a peça de Ibsen tanto quanto o fiz porque eu a considero profundamente falha.
Os esboços de Ibsen para A Dama do Mar mostram que ele começou com duas ideias contraditórias. Uma era uma peça enraizada num tema folclórico – as relações impossíveis entre personagens essencialmente não-humanos. Das lendas nórdicas, ele evocou dois personagens arquetípicos: uma mulher pagã selvagem, que é realmente uma criatura alienígena/estrangeira/sobre-humana? – o título original de Ibsen era A Sereia – e um homem rebelde condenado a vagar sem descanso (como o protagonista de um de seus primeiros dramas poéticos, Peer Gynt). A outra era uma peça com um assunto realista comum no final do século XIX, o beco-sem-saída psicológico e moral da vida nas províncias: ao lado dos personagens principais, haveria pequenos papéis para pessoas do vilarejo, visitantes de verão e inválidos num sanatório local. Tivesse Ibsen seguido nessa direção, ele teria escrito sua peça mais tchekhoviana.”
 
Susan Sontag 
em “Reescrevendo A Dama do Mar”
(...) eis aqui uma nova peça – não um mero verniz sobre A Dama do Mar de Ibsen.
O que escrevi, tanto adicionando quanto subtraindo do que Ibsen escreveu, equivale a um tipo de escavação arqueológica e reconstrução do enredo (...) enfatizando suas fontes folclóricas – materiais como o conto da mulher foca (Cena 2) e a balada (Cena 12), os quais certamente eram familiares a Ibsen – e usando um método para os personagens para apresentá-los e expor seus conflitos entre si, em que na sua explicitude, na sua frontalidade, é ao mesmo tempo mais arcaico e mais moderno. Ainda que A Dama do Mar seja substancialmente uma nova peça, acredito que ela seja fiel à parte mais forte da concepção original de Ibsen para a história. Da mesma maneira, material ideal para a sensibilidade poética e anti-realista e os talentos visionários de Robert Wilson.
O personagem de Ellida, tal como desenvolvido por Ibsen e a história, tal como resolvida por ele, envolvem concepções bastante incompatíveis. Ou Ellida não é realmente uma criatura do mar e toda a conversa sobre o mar é retórica auto-indulgente, narcisista, à beira  de  uma neurose bem humana – e neste caso o público deveria se identificar menos com ela. Ou Ellida realmente é uma criatura do mar, e não pode, por mais que deseje, ser absorvida numa existência humana convencional – neste caso a representação que Ibsen faz de um casamento que foi “salvo“ afirma algo que o público sabe que não pode ser verdade.
 
Susan Sontag em “Reescrevendo A Dama do Mar”
No teatro não há nenhuma separação entre as várias expressões artísticas. Tudo é parte de um todo. Meu uso da luz, meu trabalho com os atores, o cenário, os figurinos, a maquiagem, são elementos da concepção de uma expressão artística visual. Do mesmo modo, também a música é parte do todo. Para mim, no teatro, o que é visual e o que é sonoro são aspectos inseparáveis, que devem reforçar um ao outro, fazer com que cada um seja percebido com mais força. O todo é mais do que a soma das suas partes. Não vejo diferença entre abordar uma obra operística ou teatral. Para mim, todo teatro é uma expressão de música e dança. Prefiro sempre um trabalho clássico e uma construção clássica. Para mim a vanguarda é redescobrir os clássicos. Minha responsabilidade como artista é dizer, o que é isso? e não o que uma coisa é.
 
Robert Wilson
A DAMA DO MAR
texto de Susan Sontag 
baseado na peça de Henrik Ibsen
tradução Fábio Fonseca de Melo 
revisão e adaptação Leila Guenther
 
direção, cenário e conceito de luz Robert Wilson
música Michael Galasso
figurinos Giorgio Armani
co-direção Giuseppe Frigeni
desenho de luz A.J. Weissbard
desenho de som Peter Cerone
visagismo Luc Verschueren
colaboração para cenário Peter Bottazzi e Valentina Tescari
 
com
Lígia Cortez – Ellida Wangel / Bolette Wangel* 
Ondina Clais Castilho – Ellida Wangel / Bolette Wangel*
Hélio Cícero – Hartwig Wangel
Luiz Damasceno – Arnholm
Felipe Sacon – O estrangeiro 
Bete Coelho (participação especial) – Hilde Wangel 
* alternância de papéis
 
assistência de direção André Guerreiro Lopes  
assistente de luz Fiammetta Baldiserri
 
direção de cena Rafael Bicudo
operador de som Rodrigo Gava
técnico de som Antonio Lopes Simplicio Neto
operador de luz Isadora Giuntini
técnicos de iluminação André Luiz Pierre Vilar e Ducastam Martins Neto
maquiador Emerson Murad assistente Guilherme Vieira Souto
aderecistas Ednomar Mendonça e Wanderley Wagner
cenotécnicos Wanderley Wagner, Willian Torres, Ednomar Mendonça, Nelson Fracolla, Maicron dos Santos, Roberto Rodrigues, Enrique Casas e Paulo Ricardo
camareira Alba Rezende
operadores canhão seguidor (luz) Patrícia Savoy Ferreira Francisco,
Rodrigo Campos de Oliveira Correa, Pedro Melão Ferreira e Júlia Freitas
maquinista Paulo Ricardo
 
projeto de Change Performing Arts, Milão, Itália
diretores artísticos Franco Laera e Elisabetta di Mambro
relações públicas e comunicação Maristela Gaudio
coordenadora de produção Virginia Forlani 
assistente pessoal de Robert Wilson Julian Mommert 
 
realização Sesc - Serviço Social do Comércio
produção no Brasil prod.art.br
direção de produção Ricardo Muniz Fernandes
administração de produção Matthias Pees
coordenação de comunicação Carminha Gongora
direção técnica Júlio Cesarini
coordenação técnica Ana Cristina Irias
produção executiva Emerson Dias
assessoria de imprensa Pool de Comunicação 
 
programa
desenhos de cena Robert Wilson
seleção de textos Ricardo Muniz Fernandes
fotos Luciano Romano
design gráfico Érico Peretta
A DAMA DO MAR (BRA)
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