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Em Dose Dupla: A história da cidade mundial dos gêmeos

O nascimento de irmãos gêmeos sempre provocou curiosidade e é tido como uma característica de fertilidade. No noroeste gaúcho um pequeno município, de apenas 6535 mil habitantes, chama a atenção pela maior média de nascimentos de gêmeos do mundo. Conhecida como a Capital Mundial dos Gêmeos, Cândido Godói é uma pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul. A renda gira basicamente em torno da agricultura familiar e do pequeno comerciante. No Brasil, a média de nascimentos múltiplos é de 1,86% do total de partos (IBGE, 2010). Em Cândido Godói, essa porcentagem sobe para 10%. Diversas hipóteses foram levantadas para tentar explicar o porquê dessa alta incidência em uma população tão pequena. Mas isso vamos entender um pouquinho adiante.​​​​​​​

A cidade e o fenômeno
A curiosidade humana é singular. Através dela surgem pesquisas, descobertas, inovações. Por volta de 1985, Cândido Godói começou a chamar a atenção da imprensa por conta de seu alto índice de gêmeos: 2%, que é superior à média nacional. A porcentagem aumenta quando se fala de uma pequena localidade no interior do município. Na Linha São Pedro, a média de nascimentos de gêmeos aumenta para 10%.
             Em 1990, 84 famílias habitavam a localidade. Dos 349 indivíduos, 44 eram gêmeos. A partir da percepção das autoridades locais de que o número elevado de gestações múltiplas não era algo normal, diversas hipóteses surgiram a fim de desvendar o fenômeno. Entre as possíveis explicações, a população acredita que a água de um riacho que atravessa o povoado é responsável pelo fenômeno. No entanto, há quem acredite que a passagem de médico nazista Josef Mengele,  em sua fuga para a Argentina, pode ter algo a ver com o fato.
A lenda da água
As pessoas acreditavam que a água do Rio Dúvida pudesse ser responsável pelos nascimentos múltiplos. O riacho atravessa a cidade e a localidade da Linha São Pedro. A “Lenda da Água da Fertilidade” já está consolidada no imaginário local e está presente em salas de aula e na contação de histórias para preservar essa característica do município.
            A lenda conta que um humilde trabalhador, cansado de suas obrigações diárias, dirigiu-se as margens das águas cristalinas de um riacho que passava por sua aldeia. O homem havia perdido o brilho nos olhos há muito tempo. Esperava um herdeiro que o descendesse. O lavrador rezou preces de louvor e agradecimento, “quando os pingos de chuva começavam a cair na terra, a súplica daquele lavrador foi tão comovente e feita com tamanha fé que... o Criador tornou-se fragilmente humano por alguns instantes e a lágrima que rolou por Sua face divina juntou-se às gotas da chuva e ao pranto daquele humilde homem e, juntas, misturaram-se às águas do rio... numa mescla perfeita de divindade, humanidade e natureza....”
            Reza a lenda que desde então, de geração em geração, conta-se que todo aquele que orar com a mesma crença daquele lavrador e se banhar nas águas férteis daquele riacho, alcançará a mesma graça que foi concedida a ele: o nascimento de filhos gêmeos.
Antigamente, não havia água encanada nas comunidades do interior de Cândido Godói. O sistema era por meio de poços que alimentavam-se de vertentes ou de riachos. O professor, historiador e irmão gêmeo Paulo Sauthier explica que um dos fatores determinantes para o grande consumo da água de poço era o pequeno poder aquisitivo das pessoas: “Eles não tinham dinheiro suficiente para comprar bebidas nos finais de semana. Era muito comum as mulheres beberem suco ou chimarrão com esta água e é justamente em torno de duas fontes das quais se especulava que brotou o número de gêmeos mais elevado”.    
   De acordo com o professor, em função disso acreditou-se que a água pudesse ser um fator determinante. A lenda da água da fertilidade surgiu para explicar essa curiosidade. “Curiosamente, com a canalização de água no interior, o nascimento de pares regrediu, ou seja, não se verifica mais tanto esse nascimento múltiplo”, conclui Paulo Sauthier.

Josef Mengele
Em 2008, o jornalista e escritor argentino Jorge Camarasa lançou um livro que movimentou a imprensa nacional e internacional em torno de Cândido Godói. “Mengele: L’angelo della muerte in Sudamerica” apresenta a teoria de que o médico nazista teria cruzado pela cidade em sua fuga para a Argentina, após o término da Segunda Guerra Mundial. Ele seria responsável pela “misteriosa anomalia genética”, por meio de experimentos de manipulação genética. A teoria baseava-se também na proximidade do município da fronteira com a Argentina e na colonização alemã do povoado. Um ano antes, o médico  Anencir Flores da Silva e o advogado Jacinto Zabolotsky fizeram o lançamento de um livro sobre a temática. “Meus Dois Corpos” levanta a teoria de que Mengele esteve pela região sob os codinomes de Rudi Weiss e Elmut Gregor.
            Josef Mengele foi um oficial alemão e médico no campo de concentração de Auschwitz durante a Segunda Guerra Mundial. Além de ser um dos responsáveis pela seleção das vítimas das temidas câmaras de gás, ele foi conhecido pelos seus experimentos macabros. Uma das máximas do Reich era a purificação da humanidade através da raça ariana. Alemães loiros e de olhos azuis faziam parte dessa raça, considerada superior por Hitler. O livro “Canções de Ninar de Auschwitz”, baseado em uma história real, conta como o médico alemão realizava experimentos em crianças gêmeas a fim de descobrir uma maneira de multiplicar a raça ariana de forma mais rápida. De acordo com o professor e historiador Paulo Sauthier, após o término da guerra, Mengele foi condenado pelo Tribunal de Nuremberg e fugiu para a Argentina, apoiado pelo governo de Perón.
O médico Anencir Flores da Silva conta que realizou uma pesquisa em função da curiosidade de saber se o médico nazista esteve, de fato, em Cândido Godói. Por meio de conversas com moradores em seu consultório médico, ele notou que muitas pessoas idosas comentavam sobre a presença de alemães na cidade em meados de 1960 - 70. “Eles entravam no Brasil através das nossas fronteiras. E entre esses alemães estava Josef Mengele, era um nazista que comandava, por ordem do Führer, o hospital do campo de concentração de Auschwitz. O pessoal aqui de Godói, os bem mais “antigos”, diziam que conheciam Mengele. E eu não duvido.”, comenta Anencir.
            De acordo com o médico, para a escrita do livro foram feitas pesquisas de campo, principalmente por meio de conversas com pessoas mais velhas. O relato delas ajudou a construir a narrativa. Alguns acontecimentos pitorescos denunciariam a presença de Mengele e de seus assistentes na região. Entre estes estaria a presença de um carro preto com vidro escuro e placas da Argentina. Mengele teria parado, com o carro, em uma “venda” em Cerro Largo para passar a noite. Anencir conta que ele apresentou-se para os moradores como Rudi Weiss, alemão que estava na região para fazer experimentos com inseminação de vacas, tecnologia até então inexistente no Brasil.
            Além disso, acredita-se que um episódio de roubo de cachorros na Linha São Pedro possa ter a ver com os experimentos em animais realizados pelo médico. O suposto laboratório estaria localizado em uma casa antiga em São Pedro do Butiá, pertencente a “vovó Leonora”, que seria a amante de Mengele. Relatos de moradores revelam que um carro preto estacionava regularmente em frente à residência. Anencir conta que “tem um outro vovô que me contou coisas terríveis, como a história dos homens que passavam nas casas comprando sangue. Pagavam em dólar”. Apesar de acreditar que Mengele esteve na região e realizou experimentos em animais, Anencir repudia a hipótese de manipulação genética em mulheres: “Eu duvido que ele tenha manipulado mulheres por causa dos gêmeos, isso jamais. Ele era altamente perseguido, tinha que se manter escondido pra não ser preso”.
 
 
 
O professor e historiador Paulo Sauthier não acredita na teoria de Mengele ter passado por Cândido Godói, principalmente em função da logística da época, em que as estradas do município eram de chão batido e a própria cidade de difícil acesso. “Era impossível um nazista tão perigoso ser procurado por todo o mundo e ter coragem de se aventurar por esta nossa região; ele poderia ser descoberto”, comenta. Paulo declara que uma das provas que nega a presença do médico nazista são as mães de gêmeos: “minha mãe hoje beira os 80 anos de idade, e ela nunca, em nenhum momento, confirmou  que isto tivesse acontecido. Não tem sentido tentar fazer essa relação da nossa descendência europeia com a tentativa de especulação ariana aqui no Brasil”.
O que diz a ciência
Não raro ouvimos falar que um casal realizou uma fertilização in vitro e espera por gêmeos. O procedimento, realizado pela primeira vez em 1978, consiste na fertilização do óvulo pelo espermatozoide e é realizado em laboratório. Adriana Arent, especialista em Reprodução Humana pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUCRS, explica que a fertilização in vitro só é indicada em casos em que o casal não consegue ter filhos de forma natural. “Quando não há necessidade de tratamento, a fertilização ocorre nas trompas. No laboratório, depois da fertilização do óvulo pelo espermatozoide, há o acompanhamento das primeiras fases das divisões do embrião. Depois o embrião é transferido para útero e dá início a gestação”, comenta Adriana.
            A fertilização in vitro é dividida em três etapas: estimulação ovariana, coleta dos óvulos e espermatozoides e inseminação dos óvulos. Após a fertilização, o embrião é transferido para o útero. A inseminação é feita através de injeção intracitoplasmática de espermatozoides - ICSI. Adriana explica que é necessário um microscópio especial acoplado a um sistema de micromanipuladores. Estes são controlados de forma hidráulica e eletrônica. “Os micromanipuladores, que são dotados de micropipetas, permitem a fixação de um óvulo e a injeção de um espermatozoide no interior do mesmo”, comenta. 
        O procedimento, geralmente realizado em clínicas particulares e com custo alto, pode, muitas vezes, resultar em uma gravidez gemelar. Isso se dá porque há a possibilidade de implantação de mais do que um embrião fertilizado a fim de aumentar as chances de uma gravidez de sucesso. No entanto, de acordo com a Dra. Adriana, existe uma tendência de transferir somente um embrião para evitar as gestações gemelares. “Quando a gestação é múltipla, pode haver maior risco para a mulher e o bebê, e existem mais chances de prematuridade”.
            Margarete Fank Henz é natural de Candido Godói e realizou fertilização in vitro. Grávida de gêmeos, conta que o procedimento não é complicado e o processo durou em torno de 6 meses. “Minha mãe me conta que desde pequena eu sempre falei que queria ter gêmeos. Na época isso não era uma opção. Hoje é, e, mesmo sendo uma gravidez de risco, eu quis implantar dois óvulos”, conta. Quanto à relação com a cidade natal, ela comenta: “No meu caso acho que não tem nada a ver a questão dos gêmeos. Mas acho que quem engravida naturalmente pode ter alguma relação com o fenômeno, sim”.
A pesquisa no HUSM
Em 1995, um grupo de pesquisadores da UFSM realizou um estudo sobre a frequência de nascimentos gemelares no Hospital Universitário de Santa Maria - HUSM. O estudo contemplou um período de 10 anos (de 1985 a 1995), em que houveram 253 gestações duplas. Esse número representa uma porcentagem de 1,58% do total de partos, estimativa muito próxima à porcentagem correspondente ao Rio Grande do Sul na época, 1,76%.
            Atualmente, os números aumentaram um pouco. De acordo com o Setor de Estatística do HUSM, entre os anos de 2014 e 2019 o hospital registrou 149 casos de gestações múltiplas. O aumento no número de casos pode estar relacionado com a maior procura por procedimentos como a fertilização in vitro.
A pesquisa
A partir de uma demanda da comunidade godoiense, intrigada e revoltada com a relação dos nascimentos de gêmeos e Mengele, um grupo de pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS, investigaram o fenômeno. Lavínia Schüler Faccini, professora e especialista em Genética e Biologia Molecular pela UFRGS, conta que a pesquisa surgiu quando o grupo foi procurado por um vereador da cidade para investigar a real causa do fenômeno. “A gente nunca acreditou que fosse o Mengele, é impossível imaginar que houvesse tecnologia para isso na época, até hoje seria difícil. Mas a gente não pode não só não acreditar, a gente tem que demonstrar”, comenta Lavínia.
            Em 2009, o grupo de pesquisadores visitou a cidade para conhecer o local e entender a situação. Após isso, um projeto de pesquisa e a aprovação ética foram submetidos. Com o recurso, em 2010, iniciou-se uma série de saídas de campo. Entrevistas, coleta da água, coleta de amostras de sangue, saliva, cabelos, entre outras amostras de DNA estavam entre as ações. Além disso, a construção de árvores genealógicas das famílias com maior prevalência de gêmeos também fez parte da pesquisa.
            Finalizada em 2014, a pesquisa permitiu concluir que a pequena cidade, em especial a localidade da Linha São Pedro é, de fato, o lugar com o maior percentual de nascimentos de gêmeos. Além disso, por meio dos registros de nascimentos, foi possível demonstrar que a porcentagem já era alta antes da suposta passagem de Josef Mengele. “O que acontece a partir de 1960 é que aumenta o número absoluto de nascimentos por conta de melhorias nas condições de vida no pós-guerra. Começam a nascer mais crianças e, portanto, nascem mais gêmeos”, explica Lavínia.
A terceira conclusão importante da pesquisa remete a fatores genéticos. Por meio de pesquisas com as amostras de DNA de grupos de mães de gêmeos e grupos de mães de crianças únicas, os pesquisadores encontraram uma variante no gene 53 de mães de gêmeos. A variante é uma proteína ligada à fertilidade e atua como fator de proteção na gravidez. “As mães de gêmeos tem uma maior proporção de uma certa forma ou variante deste gene”, relata. Ela permite concluir que não houve manipulação genética, uma vez que os genes não podem ser produzidos em laboratório. “Essa variante é herdada, ela não é produzida, por isso que a gente sabe que Mengele não manipulou. No momento que conseguirmos modificar genes curamos doenças genéticas, e isso ainda não existe”, declara Lavínia.
            Além disso, fatores sociais e geográficos podem ter contribuído para a ocorrência do fenômeno. Cândido Godói foi colonizada principalmente por descendentes de alemães, tanto que o idioma falado e a cultura local carregam traços desse povo. Na localidade da Linha São Pedro, 33 famílias foram responsáveis por essa colonização. Por ser um território afastado, no início do século passado, era comum que os membros da comunidade se casassem entre si, um fator de endocruzamento, ou seja, o casal descende da mesma família e, muitas vezes, não sabia. Acredita-se que o nascimento de gêmeos seja uma ocorrência chamada “Efeito Fundador”. “É  quando uma pessoa sai de uma comunidade grande e vai para uma menor, e a característica genética permanece naquela comunidade e é passada conforme as gerações”, explica. Segundo Lavínia, o efeito fundador é, em grande parte, fruto de acasos. “Em uma comunidade grande, de cem mil habitantes, determinada característica genética, como a variante do p53, não chama atenção. Agora, essa mesma característica em uma população de cem habitantes torna a porcentagem muito maior”. O efeito fundador relaciona-se com o isolamento genético provocado pelos casamentos consanguíneos. “Não há muita troca de genes, portanto, a chance da característica permanecer na família é muito maior”.
            Quanto à questão da “água da fertilidade”, Lavínia comenta que há a percepção de que as mulheres que tomavam água de poço tinham mais probabilidade de ter gestações gemelares. “Provavelmente a água contribui, pode ser uma associação de fatores juntamente com a p53”, comenta a pesquisadora.
            A importância da pesquisa realizada em Cândido Godói se manifesta na comprovação de que não houve manipulação genética. “É uma característica da população, como são famílias que chegaram há muito tempo e são aparentados, provavelmente algumas pessoas fundadoras tinham essa característica, o que aumentou a prevalência”, expõe Lavínia. Além disso, a pesquisa é fundamental no campo da ciência, “por que ajuda a compreender como algumas proteínas, como o cp 53, ajudam na fertilidade. Não é que todo mundo queira ter gêmeos, mas tem muitas pessoas que não conseguem ter filhos”. Quanto à uma possível relação da variante encontrada nas mães de Cândido Godói com a fertilização in vitro, Lavínia explica que não há uma relação conhecida. “Para ter maior probabilidade de uma gestação de sucesso, às vezes dois embriões são implantados. O que não foi investigado ainda, e é por isso que esse questionamento é interessante, é saber se as gestações que vão pra frente podem ter envolvimento do p53”, finaliza.
Em Dose Dupla: A história da cidade mundial dos gêmeos
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