Bandeiras do Futuro
Introdução

O projeto surge da necessidade de unir temas políticos a poéticas visuais. A pesquisa começou a ser elaborada em 2018, ano que teve o começo marcado pelo assassinato de Marielle Franco e o fim por eleições que expressaram autoritarismo e discursos de ódio. 

Nas eleições de 2018, houve uma apropriação da bandeira do Brasil por parte da extrema direita. Esse ato ufanista criou a ilusão de uma nova conotação para a bandeira nacional, como se ela simbolizasse as diretrizes desse grupo específico.
 
Comecei a pensar sobre bandeiras e a força que esse objeto carrega. A palavra ‘bandeira’ manifesta uma potência ambígua: pode se referir a um objeto, a uma ideologia ou a junção das duas coisas. A bandeira é tanto um corpo quanto um pensamento.
O projeto é sobre bandeiras subjetivas, e o propósito é criar um diálogo entre política e poética a partir do levantamento de bandeiras literais.



Dinâmica I

Por ser um projeto que envolve política e subjetividade, seria necessário ter contato com o pensamento de outras pessoas. Fui orientada a criar uma dinâmica, de forma que pudesse falar com pessoas diferentes, porém direcionada a pontos específicos. 

No primeiro workshop perguntei às pessoas sobre como seria o Brasil ideal para elas, e pedi que imaginassem como seria a bandeira desse outro Brasil e que representassem isso (desenhando, pintando, etc) em retângulos de papel que estavam na mesa. Também pedi para que explicassem a simbologia do que havia sido expressado. 
Duas participantes do da primeira dinâmica; abaixo, alguns dos resultados obtidos
Agrupei os resultados de diferentes formas: bandeiras que utilizam cores claras, escuras, com elementos simplificados, com elementos elaborados, bandeiras com palavras, etc.
 
Obtive muitas representações copiando a estrutura da bandeira nacional, o que fez sentido, afinal havia perguntado sobre um “Brasil utópico”. Percebi, contudo, que as questões levantadas pelos participantes falavam mais sobre temáticas presentes no mundo todo, não apenas no Brasil. 

A partir daí comecei a me perguntar se seria mais pertinente abandonar o foco no Brasil e pensar bandeiras utópicas de forma geral. Era necessário partir para a próxima dinâmica.
Dinâmica II

Para a segunda dinâmica, optei por um questionário ao invés de um workshop. Queria alcançar o maior número de pessoas possível, e dessa vez testando não ter o recurso da imagem. Elaborei as seguintes perguntas:

1 - Como seria um país ideal para você?

2 - Você relaciona alguma cor, forma e/ou textura com a sua resposta acima? (Ou cores, formas, texturas & outros elementos também)

3 - Você consegue identificar alguma simbologia por trás das suas escolhas de cores, formas, texturas, etc?

4 - Escreva 5 palavras que vêm a sua cabeça quando você pensa em um ‘país utópico’.

Busquei perguntas que relacionassem aspectos visuais, subjetivos e palavras, para que depois pudesse fazer uma análise técnica. 
Além disso, perguntei sobre “país ideal” ao invés de “Brasil ideal” para avaliar qual camiho seguir.
Um dos 65 formulários respondidos.
Pude extrair muito material da segunda dinâmica. O formulário acrescentou um novo glossário ao meu projeto. Primeiramente foquei em avaliar repetições técnicas para extrair elementos gráficos. As palavras “círculo” e “arco íris” foram as que mais apareceram, e resolvi adotá-las como itens para o desenvolvimento de bandeiras.

Adaptei esses elementos para poder trabalhar de forma mais aberta: interpretei “círculo” não somente como forma geométrica, mas como movimentos circulares, fluidos. “Arco íris” ganhou a releitura de “faixas/listras de cor”. Outro componente adotado foi a estrela, por ser um elemento tradicional em bandeiras ao redor do mundo.
Metodologia


Após estabelecer quais elementos seriam utilizados na criação das bandeiras, reuni o material da Dinâmica II para começar a fazer os primeiros esboços.

Fiz uma seleção de palavras das respostas do formulário, compilando verbos, adjetivos, substantivos e comecei a criar frases com elas, algumas de forma aleatória, outras propositais. 

As frases que mais me interessavam originavam desenhos de bandeiras, feitos de forma despretensiosa.
Algumas das palavras usadas para a criação de frases.
Esboços

Fui criando desenhos de possíveis bandeiras conforme as frases surgiam, sempre usando os elementos definidos após as dinâmicas realizadas.
Protótipos

Os resultados escolhidos viraram protótipos em tricoline, medindo 20x45cm. Para acelerar a produção, colei as formas cortadas no tricoline com cola quente.

A finalidade era ter noção de como as imagens se comportariam em tecido e pesquisar quais cores poderiam ser usadas. 

Parte técnica

Padronizar o tamanho das bandeiras foi uma forma de criar unidade no projeto. Utilizei a medida brasileira oficial para bandeiras, que se chama “pano” e é equivalente a 0,45 x 0,64 m.Com os desenhos e tamanhos parti para a confecção dos moldes.

Fiz os todos os moldes em cartolinas com o tamanho exato das bandeiras, especificando também a posição dos elementos. 

Meu nível de costura é básico, o que me fez sentir insegura para costurar todas as bandeiras. Demandaria muito tempo e o acabamento não ficaria satisfatório, gerando um problema desnecessário em meu processo. 

Para garantir uma boa qualidade ao trabalho, contratei Sara, costureira conhecida de minha mãe há muitos anos. Tive dois encontros com ela para entregar os moldes e discutir quais as melhores maneiras de fazer cada bandeira. 

Ela foi extremamente cuidadosa em passar as marcações do papel para o tecido, mantendo todas as características do meu traço exatamente como estavam.

Exemplo de molde.
Finalização

Levei as bandeiras prontas para o laboratório de fotografia da PUC-Rio. Abaixo está o resultado das fotos e o nome de cada peça, respectivamente.
1- Bandeira das Preciosas Liberdades Individuais
2- Bandeira das Acolhedoras Nuances das Diferentes Formas de Ser
3- Bandeira das Múltiplas Harmonias que se Refletem
4- Bandeira do Vislumbre da Prosperidade
5- Bandeira da Potência Equilibrada dos Opostos
6- Bandeira do Sol Vibrante da Esperança
7- Bandeira dos Sentimentos Democráticos que Brilham
8- Bandeira das Possibilidades dos Caminhos que se Abrem
9- Bandeira da Clareza da Igualdade
10- Bandeira da Fluida Locomoção Entre os Lugares 
O futuro das bandeiras

Comecei a pensar sobre as possíveis formas do projeto “estar no mundo”. Confusa, enviei por email para meu orientador, Fabio Lopez, algumas ideias e referências. Uma delas era o link de uma matéria que me inspirava muito, sobre o happening “Bandeiras da Praça General Osório” que ocorreu em 1968. Na ocasião, um grupo de artistas se juntou para criar e levantar bandeiras políticas, durante o período da ditadura militar.

 Discutimos sobre o “Bandeiras Praça General Osório” e como aquilo se relacionava com o meu projeto. Acredito que a praça é um espaço democrático, representativo, onde as pessoas se encontram para discutir ideias, política, exibir produções artísticas, falar e ouvir. É fundamental ter as ideias vivas em praça pública. Inspirada pelo happening de 1968, resolvi propor essa vivência para meu projeto. 

Foi interessante a experiência de exibir o projeto em um local público e testemunhar diferentes reações e olhares. Alguns pararam para ver, elogiar ou conversar sobre, outros apenas passaram e olharam depressa. Em todo caso as bandeiras estavam ali, sendo vistas e causando algum tipo de reação, nem que por um milésimo de segundo.

Fiquei interessada em pensar as bandeiras no espaço, como elas se relacionam com os lugares e com as pessoas. Tinha uma viagem marcada para Israel e acabei levando as bandeiras comigo, para um cenário de morros e deserto completamente diferente da experiência proposta anteriormente.


É curioso olhar para as bandeiras coloridas e pensar que o projeto surgiu em um contexto de insatisfação, tristeza, raiva. A criação é a força transformadora que impulsiona o viver, principalmente em tempos difíceis. 

Acredito que o projeto esteja apenas começando. Mais bandeiras virão pela frente com novas possibilidades de caminhos, lugares, experiências e múltiplos desdobramentos.

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