Uma Breve Narrativa sobre Francisca
Uma Breve Narrativa sobre Francisca
Francisca tem 91 anos, viúva e mãe de 4 filhos. Nasceu em Paulista e foi criada por sua tia, Virgília, pois sua mãe passava o dia todo trabalhando na fábrica da Torre, o pai era alcoólatra, e morreu antes de seu nascimento. Quando ficou adolescente foi morar com a mãe na vila da fábrica. Estudava na época, cursou até quarta séria. Naquele tempo, era só até onde o pobre conseguia estudar, fazer as séries mais avançadas ou entrar na universidade era coisa de rico. Quando terminou os estudos, Francisca ficou cuidando da casa, enquanto sua mãe trabalhava. Ela não sabe ao certo como a mãe morreu, diz que talvez tenha sido pelo que hoje chamam de Alzheimer, mas naquela época ninguém sabia muito bem o que estava acontecendo com sua mãe.

Após a morte de sua mãe, o único caminho possível para ela foi o casamento. Figueiroa era o nome do marido, se conheceram na vila da fábrica da Torre, ele servia ao exército e sempre passava na frente da casa dela, ele se apaixonou, ela não. Perdida, sem trabalho (era difícil pra mulher trabalhar na época), sem família, sem perspectiva, Francisca olhou Figueiroa talvez como uma possibilidade de um futuro melhor, de uma vida melhor e mesmo sem o amar, e talvez, com uma frieza e instinto ímpar, ela casou.

Casados, foram morar no Rio de Janeiro, mas a vida não foi muito fácil lá. Figueiroa estava desempregado, eles não tinham nada naquela cidade. No começo moravam numa casa dividida, na frente da casa era uma joalheria, atrás, um cômodo onde eles dormiam. Não tinha cama, só um caixote onde eles se deitavam. Em um certo momento Francisca encontrou, nas ruas cariocas, com a família de seu ex noivo, eles moravam em um terreno invadido e ajudaram ela à construir um “barraco” com seu marido. Quando Figueiroa começou a trabalhar como mecânico de avião Panair, a vida, economicamente, melhorou. Foram morar numa casa alugada em um bairro que era um pouco melhor. Tiveram dois filhos no Rio de Janeiro. Voltaram para Recife, quando o marido foi transferido.

Moraram nos Aflitos, Iputinga, Madalena, Fundão, Beberibe, Boa vista. A mudança de casa deixava bem claro o quanto o relacionamento dos dois era instável. Não se davam bem, mas mesmo assim permaneciam casados, como uma obrigação. O divórcio, principalmente para a mulher, não era bem visto. Mesmo assim, tiveram mais dois filhos em Recife. Depois que nasceu a última, Francisca e Figueiroa não dormiam mais no mesmo cômodo, perceberam que não dava mais pra tentar, nunca existira casamento de verdade ali. Foi na igreja que Francisca encontrou a estabilidade que procurava, o relacionamento, encontrou, de certo modo, a felicidade que não tinha no casamento, a religião foi o que fez ter uma vida.

A velhice chegou para ela com 70, quando começou a sentir que o tempo estava passando. Não morava mais com seu marido, agora, dividia a casa, no Janga, com as duas filhas e seus dois netos. Foi nesse momento que ela percebeu que o tempo passara. Antes, nunca tinha pensado na velhice, não se importava com isso, era muita coisa pra fazer, cuidar dos filhos, da casa, do marido, da igreja. O seu foco estava em sobreviver, estava no presente. Só depois de ver filhos crescerem, casarem, terem filhos, depois que o corpo começou a mostrar marcas da idade, que pensou no futuro e viu que esse futuro era a velhice.

Com 91 anos continua a morar com suas filha e sua neta, nesse momento já não tem como olhar para o futuro, pois, esse, nem existe mais. Ela só está esperando a morte, talvez um pouco infeliz por ser velha, mas não pela idade em si, mas por depender das pessoas, por ver as coisas acontecem e não poder fazer nada pra ser do seu jeito. Por não morar na sua casa e depender de pessoas. A infelicidade também está em ter muitas memórias, em olhar para trás e ver uma vida que talvez não tivesse sido aquela que ela queria quando jovem, por perceber que talvez não tenha sido feliz em 91 anos. Agora ela espera ver o bisneto nascer para ter alguma alegria, para pelo menos poder morrer feliz. Enquanto esse dia não chega ela segue assim, sentada na varanda, olhando os dias passarem, esperando alguma coisa chegar.
Uma Breve Narrativa sobre Francisca
2
6
0
Published:

Uma Breve Narrativa sobre Francisca

2
6
0
Published:

Creative Fields