Mais foi tanto dos vaquero qui rênô no meu sertão
“Mais foi tanto dos vaquero qui rênô no meu
sertão”
Renan Martins Pereira
Mestre em Antropologia Social/UFSCar

Eu – Como é ser vaqueiro?
Vaqueiro (seu Antônio) – Mas os vaqueiro de antigamente... Eles era uns homi bruto, um índio, um caboclo brabo, não sabe? Eles só aprenderam aquilo que aprendeu a fazer. Mas só aprendeu aquilo. Ele não sabia de nada, não tinha estudo de nada. Tinha deles que não sabia nem assinar a primeira letra do nome. Mas com a inteligência que Deus deu a ele, ele aprendeu tudo: pegar o boi, amarrar, seguir, tanger o boi bem direitinho, colocar no curral, dar de comer ao boi manso. Ele aprendeu tudo com aquilo que Deus lhe deu, pois ele não teve quem ensinasse a ele, o homi bruto.

Um grande vaqueiro, conhecido como seu Antônio, depois de pegar um boi na caatinga e botá-lo no curral, foi interceptado por um dos meus interlocutores de pesquisa que sugeriu a ele que expusesse a mim algumas reflexões sobre, por exemplo, quem é o vaqueiro sertanejo, o que significa sê-lo e qual a diferença do vaqueiro de outrora para o de hoje. Na tentativa de fazê-lo, sua resposta foi muito breve, apresentando, de saída, um exercício mnemônico composto por uma reflexão quase mítica, uma origem.
Enquanto conversávamos rapidamente, ainda em seu cavalo e afoito para correr e derrubar outra rês, seu Antônio não se disse mais vaqueiro do que os vaqueiros mais novos que estavam ao seu redor, embora pudesse contar mais histórias do que eles. Para muitos, ele sim é considerado um vaqueiro de verdade. Por ter conhecimento da vida do campo e por ter vivido no tempo em que para ser vaqueiro era preciso mais coragem do que hoje. O que confere a ele, na sua relação com os demais, a potencialidade de ser mais corajoso, mais catingueiro e de ter mais prestígio.
Se a minha pesquisa era sobre o vaqueiro sertanejo, nada mais compreensível – do ponto de vista dos meus amigos sertanejos – que um grande vaqueiro fosse recrutado para que este me dissesse algumas palavras. Dos aproximadamente cento e cinquenta vaqueiros que estavam na vaquejada, foi em direção a ele que meus amigos sertanejos me levaram. Logo, supus que suas palavras não seriam quaisquer palavras, mas as de um vaqueiro véio.
No Sertão, as palavras podem vir a ser o indício do conhecimento de alguém capaz de produzir, narrar e registrar histórias. No meu contexto etnográfico, foram contadas histórias de vaqueiro em que a memória e o conhecimento estavam imbricados na retórica da tradição, algo justificável pelo fato de já ter existido no passado e por permanecer viva atualmente a despeito de suas formas contemporâneas, porém não a despeito do que as diversas perspectivas têm a dizer sobre elas. Perspectivas que dizem muito sobre muitas coisas.
As fotografias, nesse sentido, são fragmentos temporais, mas também conceitualizações. São enquadramentos que delimitam um momento, uma reflexão, um encontro. São imagens que deslocam o pensamento a cada novo olhar. A cada nova investida no meu material de campo, sempre penso que as fotografias são como limites conceituais que a toda hora se redistribuem de forma variada, tendo em vista que é por meio de imagens que a reflexividade nativa se impõe. Sendo com elas também que o antropólogo desenha sua etnografia.
As fotografias desta edição são resultantes da minha pesquisa de campo no sertão de Pernambuco, mais precisamente, no município de Floresta, entre os meses de fevereiro a maio de 2016, como requisito para o desenvolvimento da minha pesquisa de mestrado, tendo como temas centrais o pastoreio sertanejo, o vaqueiro, a memória e as relações interespecíficas.
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