Era uma vez, numa terra muito distante, uma linda virgem que recebeu o anúncio de que ela mudaria o mundo, pois em seu ventre nasceria Jesus Cristo, o Messias. 
Pelo menos foi assim que eu aprendi na Igreja, lugar que eu ia diariamente contra minha vontade. Eu só pensava em estar com meus amigos ou ler algum livro, mas toda vez lá estava eu na Igreja. Nos primeiros anos ouvindo o padre repetindo todos os textos continuamente e a única coisa que eu tinha que falar era: “rogai, por nós pecadores” ou “Ele está no meio de nós”. Depois, quando minha mãe decidiu deixar São Lázaro de lado e passar a acreditar em tudo o que o pastor falava, ficou ainda mais chata essa vida de cristão jovem. Que bom que o Movimento Indígena me tirou deste martírio.
Certa vez li numa revista que a imagem que eu acreditara a vida toda era irreal, Jesus era negro. Nas páginas que li estavam cientistas que se dedicaram ao estudo sobre O Cristo, várias teorias de onde ele havia nascido e que caminhos teria percorrido historicamente, até chegarem a crânios da mesma época e região onde Jesus nasceu e viveu. Lembro que até recriaram em imagem 3D a real imagem de como seria o Salvador do mundo. Tudo ali fazia sentindo, afinal eram cientistas e eu acredito muito na ciência. Mas pra mim o mais intrigante era que realmente não faz o menor sentido a imagem eurocêntrica de Jesus, afinal se ele fosse branco não teria ido parar na cruz nem teriam aplausos e linchamento público pelas ruas até o Calvário. Se ele fosse branco talvez Pilatos o mandasse para manicômio depois de ter escutado: meu Reino não é deste mundo, mas do Reino dos Céus, mas para a Cruz nunca.
Um Jesus negro faz sentido, pois se em 2018 as pessoas não aceitam a ascensão de alguém que não seja branco e de direita, imagina naquela época que tudo era permitido para manter-se no poder, “sem Direitos Humanos pra encher o saco”, como disse o vice do nosso Messias brasileiro. Hoje, para impedir que negros e indígenas cheguem no topo os poderosos criam mecanismos que driblem essas “Leis comunistas”, essas Leis que impedem os brancos de agirem como brancos. O novo Messias, o “nosso Messias” ao contrário do galileu não perdoaria Judas, pois bandido bom é bandido morto. É como um espelho negativo de Messias, de um lado o que diz que o “mais importante é o amor” e no reflexo aquele que prega o “mais armas para todos”. Não sei se era a minha má vontade de ir à igreja ou se li a Bíblia errada, mas tá tudo diferente do que aprendi naquela época triste. Agora além de triste está assustadora e eu temo por mim e pela minha família, amigos e conhecidos.
Desde de 1500 os indígenas foram forçados a aceitarem o eurocentrismo religioso o que fica claro quando visitamos aldeias indígenas pelo Brasil. A religião branca está firme e sólida dentro do cotidiano indígena, mesmo que ainda mantenham suas línguas e rituais, sempre tem ali um pôster do Messias de cabelos longos, barbudo, olhos azuis e aquele sorriso de “eu te dominei, né”, talvez até uma reprodução da Santa Ceia próxima aos maracás e cocares. Se podemos mudar isto? Acho difícil. Tudo foi pensado tão estrategicamente que hoje é quase impossível de ser desfeito. De repente a gente podia repensar pelo menos as imagens que temos desse Jesus , quem sabe seria menos doloroso aceitar uma imagem que parecesse mais com Nós do que com o que nos colonizou. Que tal, um Jesus Indígena! Ah não, péssima ideia. Péssima ideia!
Bom, já que não podemos mudar o fato de estarmos contaminados pelo Messias da Galileia ao menos temos a chance de não termos mais um Messias branco nas nossas vidas. Já basta um que mesmo morto dá uma dor de cabeça terrível, tudo o que não precisamos é de mais um pra nos torturar por séculos ou enquanto estivermos vivos, se é que viveremos para contar a História.
#EleNão #EleNunca