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Black Mirror, realidade simulada e o amor no futuro

“Hang the DJ” é o quarto episódio da quarta temporada da série de suspense psicológico Black Mirror. Exibido dia 29 de dezembro de 2017, escrito por Charlie Brooker e dirigido por Tim Van Patten. Tem como plot principal Frank e Amy em seu primeiro encontro numa plataforma para relacionamentos, chamada “Coach”. O título do episódio é uma referência a musica de 1988, “Panic”, de The Smiths. É uma musica que fala sobre se rebelar, não se adequar ao que toca na rádio, e sobre não se sentir representado pela cultura pop. Durante a música, é falado repetidamente “hang the DJ”, com uma tradução livre “enforquem o DJ”, como uma forma de dizer que não vai dançar conforme a música.
            O episódio começa com Frank e Amy tendo seus primeiros encontros no sistema e um pouco ansiosos. Ao verem que o tempo de seus relacionamentos só durará 12 horas, eles ficam um pouco desapontados por sentirem uma afinidade imediata um com outro. O episódio tem uma contratendência dos outros episódios, trazendo uma premissa mais leve, mais positiva e desejável. Coloca-nos pra pensar de acordo com o que estamos vivendo hoje, trazendo questões mais apropriadas com o que nossas relações pessoais se tornaram. Vê-se muitas críticas e receios sobre relações iniciadas virtualmente, ainda que hoje, seja muito mais fácil conhecer ou manter contato através de mídias digitais, já que o alcance é muito maior e a gama de pessoas disponíveis também. Então usar a internet para relacionamentos afetivos, além de ganhar cada vez mais popularidade entre diversas gerações, tem sido aprimorado. Hang the DJ traz uma nova forma de relacionamento, com uma nova realidade, em um universo criado só pra fazer a relação funcionar, então se é algo novo, por que necessariamente ele deve ser negativo? Quando é que podemos alcançar, e como saberemos que alcançamos o patamar em que o físico não é mais tão importante, e que apenas saber do sentimento de alguém já é o bastante? É algo pra ser pensado hoje, porque tecnologias como a ‘Iniciativa 2045’, de Dmitry Itskov que visa nos tornarmos seres de luz até 2045, mudarão nossas perspectivas do que é físico, do que é real, do que é estar presente. Se em Hang the DJ, eles se sentiam próximos, o que é estar próximo?
            Mas e se como na série, pudéssemos ver o tempo que vai durar esse relacionamento? Como lidaríamos com problemas sabendo que ainda tem muito ou pouco tempo? Qual o valor que teria? O ser humano é o único animal que tem consciência da sua morte, sabemos que um dia nossa vida chega ao fim e mesmo assim temos uma vida e nos esforçamos para edificá-la, não apenas ignoramos a vida ou a temos como uma passagem. O quanto conseguiríamos trazer isso pras nossas relações? E qual valor daria pra algo finito? Sem a promessa de um possível futuro? “Hang the DJ” nos coloca pra refletir sobre o que é fútil ou não, o que é necessário e o que não é. Em um momento, Amy tem uma vida de solteira, com vários encontros rápidos que são basicamente só sexo, e toda essa movimentação faz com que ela se sinta entediada, como se sua vida estivesse parada.
            Assim como em aplicativos como Tinder, Happn, Badoo, o que você tem é uma vitrine de pessoas da qual você não precisa conhecer pra se relacionar fisicamente. Muita gente sim, se apaixona, mas até encontrar essa pessoa, por quantas outras pessoas e situações já passou dentro daquela plataforma? Encontros rápidos que correspondem com o que você precisa no momento, mas que com o passar do tempo, tornam-se sem sentido. Passa a ser um relacionamento sem propósito porque você não é mais a pessoa que entrou naquela relação. Mas o que é mais impressionante, é que o “Coach” não os cansa, os deprimindo de propósito pra fazer com que encontrem o par ideal, ele te obriga a ter experiências negativas e positivas com outras pessoas pra que você possa enxergar todos os aspectos de alguém, que consiga ver também o que não gosta e criar um relacionamento saudável. Até o momento que eles se dão conta de que estão em uma realidade virtual que tudo está ali para gerar 99,8% de acerto com o match ideal.
            E aí, mais uma vez entramos em um ambiente “Black Mirror”: réplica de consciência. O “Coach” os levou a se rebelarem e “enforcarem o DJ” 998 de 1000 vezes porque eles se deram conta de que estavam em uma matrix. Eles não se lembravam onde estavam antes daquele lugar, eles diziam quase que de forma automática que não havia nada do outro lado e o que os fizeram perceber que estavam em um web environment foi uma referência a Matrix (1999).
            No filme, o agente fala que a primeira Matrix era tudo perfeito, tudo tinha harmonia, os conflitos não existiam, e foi aí que os humanos começaram a se darem conta em maior número de que aquilo não era real, porque um mundo tão ideal, não tinha como ser o mundo real e foi aí que perceberam a falha na Matrix. Assim como Frank e Amy. Eles perceberam que aquele mundo não tinha como ser real, e o que era real, eram o sentimento um pelo outro e a necessidade de se rebelarem. Isso tudo, sendo cópias em um ambiente virtual, então o que é real? De acordo com a filosofia, real é "tudo o que existe". Em seu sentido mais livre, o termo inclui tudo o que é, seja ou não perceptível, acessível ou entendido pela filosofia, ciência ou qualquer outro sistema de análise. A ilusão quando existente é real e verdadeira em si mesma. Então uma realidade que desperta seus sentimentos e sentidos, é sim real e toda aquela vivência foi real, ainda que não tenha sido no mundo físico.
            No fim, quando eles se encontram no mundo físico, ao som de Panic – The Smiths, em um bar, é quando eles percebem que tudo aquilo foi real porque a sua persona online não é distinguível de quem você é fora de ambientes virtuais. Toda a revolta dele os levaram para seus pares definitivos, e no maior estilo Black Mirror, visto pela primeira vez como algo positivo, a realidade simulada trouxe um resultado que não poderíamos ter com tanta eficiência apenas com análises de comportamento, que é o que temos hoje. “Hang the DJ” pode parecer muito futurista com sua matrix, mas é uma alegoria pra falar de relacionamentos que nascem em ambientes virtuais. Se for real pra quem sente, se o contato físico é dispensável, o que passa a ser real? Temos duas formas de nos relacionarmos ou estamos reinventando a noção de relacionamento? Como Amy diz no inicio do episódio “antes devia ser muito difícil sem o aplicativo”, a proposta de Hang the DJ é nos mostrar que estamos caminhando para novas formas de relacionamento, e que transcendemos a necessidade do físico.
             
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