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AFROFUTURISMO, CORRA!, E O PARADOXO DE CLOVERFIELD
AFROFUTURISMO, CORRA!, E O PARADOXO DE CLOVERFIELD
(contém spoiler de Corra! e Paradoxo de Cloverfield)

A ficção científica completa 200 anos em 2018, desde Frankenstein (Mary Shelley, 1818), que é considerada a primeira ficção científica, temos esse gênero da ficção especulativa que imagina cenários, não necessariamente aceitáveis pela ciência moderna, de futuro, ciência e tecnologia.
Desde então, temos impactos pela ficção científica em vários setores, como na robótica, na inteligência artificial, porque a ficção científica nos abre espaço para imaginar e pensar em possíveis futuros, com novas ferramentas e gadgets apresentadas em obras do gênero. É curioso ver o tamanho da influência, negativa e positiva. Negativa porque desde 1818, temos medo da tecnologia. A ficção científica é atrelada ao gênero de horror, como tivemos com Frankenstein e hoje com Black Mirror. Em 1836, ainda na influência de Mary Shelley, os veículos de comunicação estamparam o nome de Andrew Crosse afirmando que ele havia criado seres semelhantes a ácaros e aranhas em laboratório, e isso foi embasamento para divulgarem que aranhas eram feitas em laboratórios, totalmente sintéticas! E então, 100 anos depois, , em 1938, quando a radiodifusão de Guerra dos Mundos foi ao ar no Halloween. Baseado no que parecia ser crível, uma invasão marciana, após muito se falar de estudos de vida em Marte. Aproximadamente seis milhões de pessoas estavam ouvindo, e dentre elas, ao menos um milhão foi a total histeria. Houve o caso de uma mulher que queria tomar veneno e o marido chegou na hora. Mas muitas pessoas entraram em total desespero, sentiam um medo absurdo, abandonaram suas casas, ligaram para entes queridos os alertando e se despedindo.
Mas a ficção científica também nos trouxe influências positivas, como a Neuralink, iniciativa de Elon Musk frequentemente comparada à Matrix. Consiste em fazer “download” e “upload” de novas habilidades, porque Elon Musk teme pelo futuro dos humanos e nossa sensação de utilidade quando existirem máquinas capazes de tomarem os postos de cérebros de obra, então assim, seria nossa forma de nos igualarmos à inteligência artificial. Se formos ainda mais longe, temos “Le Voyage dans la lune”, filme francês de 1902, dirigido por Georges Méliès, e escrito por Georges Méliès, Jules Verne, H. G. Wells, que mostra a fascinação que o homem sempre teve pela lua, e se concretizou em 1969, com a Apollo 11 da NASA. A ficção científica sempre trabalhou com nosso imaginário, com o que sonhamos quanto humanidade e não apenas indivíduos, e nos faz questionar sobre como vai ser esse futuro. Também temos Interestelar de 2014, dirigido por Christopher Nolan que contou com a ajuda de Kip Thorne, um astrofísico que ajudou Nolan com efeitos especiais do que seria o buraco negro de verdade. Esse filme produziu imagens jamais feitas, deu uma nova perspectiva de como pode ser visualmente um buraco negro foi algo inovador que trouxe realismo e sensibilidade ao filme, mas também, tendo imagens que hoje podem ser usadas como referências em diversos meios.
É evidente a influência da ficção cientifica, como podemos usá-la para falarmos de coisas reais, nos ambientar no futuro e fazer perguntas que precisam ser respondidas hoje para termos um futuro mais confortável. E então hoje, é preciso perguntar: onde estão os negros dentro desses ambientes? Onde estão as pessoas negras sendo representadas com tecnologia, sendo levadas ao espaço, e gerando reflexões? Onde está a cultura negra na ficção científica? E por causa dessas dúvidas foi que precisamos criar o Afrofuturismo em 1999. O que é, inclusive, mais fácil de entender do que parece. Temos o poder de imaginar cenários futuros com tecnologia e ciência avançada, então imaginaremos com negros fazendo parte também.
Em 18 de Maio de 2017, estreou no Brasil o que considero a maior obra de afrofuturismo no cinema até hoje. Chama-se Corra!, filme de 2017 estrelado por Daniel Kaluuya, dirigido por Jordan Peele, com orçamento de US$ 4,5 milhões e lucro de US$254,9 milhões, e quatro indicações ao Oscar incluindo melhor ator, melhor diretor e melhor filme. O filme conta a história de Chris, um negro retinto, que está prestes a conhecer a família de sua namorada, que é branca. Ele se sente acuado a ir, chega a perguntar à namorada se a família sabe que ele é preto. O filme é brutal, apesar das críticas que falam a todo o momento que é o racismo é usado como mecanismo, ele é sobre racismo. O filme é uma crítica ao “eu não sou racista, até tenho amigos negros!”, ao racismo disfarçado de elogio, aos estereótipos, ao fato que o branco sempre se sente no controle do negro e como isso é violento. É um filme de horror, é um sci-fi e é muitíssimo bem trabalhado com suas tecnologias (daqui até o próximo parágrafo é spoiler!). Rose leva namorados e namoradas para conhecer a família, e lá, esses negros são leiloados. Mas não da forma que estamos habituados. As pessoas desse bairro acreditam numa raça superior, e pra isso, precisariam dos corpos dos negros, pois são mais atléticos, “estão na moda”, é mais “sexualmente potente”, mas não é de forma alguma capaz de cuidar disso, por isso, é feita uma cirurgia em que um branco, na maioria das vezes mais velho, prestes a morrer, é transferido para o corpo de um negro. E então passa a ser uma casca preta e um cérebro branco, o ser humano ideal (fim do spoiler!).
 Temos branco o tempo inteiro dizendo aos negros como eles devem se comportar, falar, como exibir menos sua negritude, como o branco, precisa mandar no que o negro é. Mas o racismo ainda é feio, ainda é crime, ainda é marginalizado, por isso, é preciso que ele seja velado. E como isso é feito? Com elogios que são violentos. O filme não poderia colocar de forma melhor. Hoje não temos tráfico de escravos no meio da rua (ao menos não em grandes centros), não temos chicotadas, mas temos sexualização do corpo do negro, temos poucos negros em áreas de comunicação ou criativas porque o negro ainda é bom pra tudo que é físico, como ser a tia da faxina, correr em uma Olimpíada, mas o negro não é bom pra ser um jornalista, médico ou diretor de cinema. Não temos negros sendo reconhecidos como humanos porque ser reconhecido como humano é dar a alguém total autonomia, dizer que ela tem capacidade, e negros não tem isso porque ainda temos uma sociedade que diz que “você é boa para relações sexuais, mas não é boa para trabalhar no meu centro de pesquisa ou na minha agência”. E isso é violento, é brutal.
Corra! trabalha isso muito bem, e ainda a parte de alivio cômico é muitíssimo bem colocada, Chris e seu melhor amigo, Road, cuidam um do outro como negros, eles se entendem quanto pessoas negras que temem na sociedade o tempo inteiro. É importante ressaltar que o Chris tem um bom apartamento, é bem sucedido, mostra outro lado do espectro e enfatiza o quão enraizado o racismo está na nossa sociedade. Road é quem salva o Chris porque ele é o único que entende o que ele quer dizer, o filme trabalha muito bem a parte de como negros se sentem confortáveis quando identificam outros negros por perto. Outro ponto importante é lembrar que o filme em nenhum momento fala de racismo reverso. Chris não mostra aversão aos brancos, e também não fala de negros que rejeitam negros. Vi criticas que levantavam isso como pontos, mas não são pontos que acontecem no filme. Assim como na sociedade, negros também são influenciados por padrões sociais, então o negro rejeitar outro negro não é porque ele rejeita a própria cor, é porque o meio social dele o ensinou que negros devem ser descriminados e marginalizados. E racismo reverso é complicado dizer, o que o filme mostra o tempo inteiro é medo. É um horror psicológico, então ele trabalha o tempo inteiro na questão do medo, na perspectiva do Chris, qual o tamanho do medo que ele sente antes mesmo de chegar ao lugar.
(Spoiler) Ainda sobre o roteiro, na primeira versão do filme, houve um final alternativo onde Chris seria preso. Mas isso iria a contraponto a relação estabelecida por Chris e Road já que Road se preocupou e investigou o que estava acontecendo. Um final alternativo onde Chris seria preso, iria ficar desacreditada a compreensão que um negro tem do outro em situações de racismo, esse final foi importante para posicionar negros sobre outros negros e que apenas um negro consegue entender perfeitamente a situação em que o outro vive, sem aquilo de “ah, mas você tem certeza?” como inclusive acontece em uma cena em que Chris pede pra ir embora e Rose não entende. (Fim do spoiler). Outra ressalva importante pra se aprofundar no filme é reparar no figurino. No inicio do filme, os pais da Rose estão vestidos de preto, com exceção do irmão dela, que é quem não faz esforços pra exibir sua crença na soberania branca. Conforme o filme vai passando, eles passam a usar peças brancas por cima do preto, sempre indicando que o branco vai dominar o preto. E por fim, eles usam branco total, (spoiler) inclusive Rose, que quando revela ser quem “caça” os negros em potencial, durante o filme todo ela usa colorido, mas quando ela se revela, ela usa um branco límpido, que é quando ela não precisa esconder mais o que acredita (fim do spoiler).
E então, essa semana a Netflix anunciou durante o Superbowl o novo filme do universo Cloverfield, e o disponibilizou no fim do jogo. Impressionante jogada de marketing que deixou muita gente desacreditada com a coragem da Netflix. Com direção de J.J. Abrams, o filme tem uma protagonista negra, mulher, cientista, europeia em uma estação espacial que pode salvar uma crise de energia no planeta. E ela tem um marido negro. E filhos negros. E um capitão negro na estação. Não assisti aos outros filmes da franquia, então não posso fazer grandes críticas sobre a produção, mas é um marco para a ficção científica um filme de uma franquia famosa, de um diretor respeitado, transmitido pela Netflix ter uma protagonista negra. Isso abre o leque de possibilidades e molda a perspectiva de próximas gerações que consomem esse conteúdo. É uma mulher negra, bem sucedida, cientista, feliz em seu relacionamento que tem seu espaço e sua voz e precisa ser respeitada pelos demais por causa da situação em que foi colocada. Ela não mostra o corpo em nenhum momento, não tem sequer uma cena sensual, o tempo inteiro ela é enfatizada como astronauta. Como também o rápido exemplo de Quellcrist Falconer, personagem interpretada por Renée Elise Goldsberry, mesmo sendo o par romântico do protagonista, ainda é a voz da revolução em Altered Carbon, série também da Netflix estreada em fevereiro de 2018. É muito importante que tenhamos negros no futuro, negros no espaço, negros em boas posições para lembrar que negros existem que eles vão continuar existindo.
O futurismo, mesmo enfraquecido após a Primeira Guerra Mundial, teve seu nascimento em 1909 e veio com tanta força que o poeta italiano Filippo Marinetti, defendeu a destruição de museus e de cidades antigas. Considerava a guerra como forma de higienizar o mundo. O futurismo é um movimento artístico e literário surgido oficialmente em 20 de fevereiro de 1909, com a publicação do Manifesto Futurista. O futurismo vem caracterizado com a pintura futurista; que recebeu influência do cubismo e do abstracionismo, mas utilizava-se de cores vivas e contrastes e a sobreposição das imagens com a pretensão de dar a ideia de dinamismo e na literatura; as principais manifestações ocorreram na poesia italiana, que se dedicava às causas políticas. A linguagem é espontânea e as frases são fragmentadas para exprimir a ideia de velocidade. Mas apesar disso, o Afrofuturismo só veio em 1994.
O Afrofuturismo surgiu na década de 60 com o pioneiro do movimento afrofuturista foi o compositor de jazz, poeta e “filósofo cósmico”, Sun Ra. Porém, apenas em 1994, o Afrofuturismo tornou-se de fato um movimento cultural, graças ao escritor americano Mark Dery, que trouxe para um ensaio batizado “Black To The Future: ficção científica e cybercultura do século XX a serviço de uma apropriação imaginária da experiência e da identidade negra”, a definição da estética futurista afro. O ambiente que surge do descompasso entre o fim das guerras civis na África e a reconstrução das cidades atingidas, fizeram com que artistas africanos como Kia Henda e Nástio Mosquito criassem as suas próprias interpretações e acrescentassem ao debate a importância da extinção do conceito da imagem do negro como pejorativamente exotizado, que muitas vezes é retratado por Hollywood. “Mostro como identificam o exotismo no africano e como isso propagou a imagem do negro, do preto, do tribal, o que constrói todo o preconceito.”, disse Mosquito, em matéria publicada na Folha de S. Paulo em 2010. O Afrofuturismo vem com a função de colocar o negro em um tempo presente e futuro desassociando pessoas africanas e negras diaspóricas daquela ambientação artesanal e exótica, introduzindo suas imagens em pessoas capazes de criar e imaginar ferramentas são modernas, funcionais e sofisticadas como qualquer personagem futurista branco.
Todo esse movimento, novas produções, novas perspectivas dão ao negro, não apenas a capacidade de serem representados, mas também dão a oportunidade de desejar e sonhar com cenários onde eles possam ser os criadores e não apenas o trabalho braçal, onde eles são abraçados por um movimento que também quer imaginar “um futuro onde existem viagens interplanetárias e que não seja triste”, como disse Elon Musk. É possível sim para o preto chegar lá, e o Afrofuturismo não cria um “nós x eles”, cria um “nós por nós para que possamos alcançá-los”. Jordan Peele, homem, negro, indicado ao Oscar com um filme de horror que costuma ser rejeitado pela academia e que traz ficção científica pra dizer que os negros existem e resistem, é a maior prova que é capaz e que o nosso movimento está se tornando revolução.


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