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    The Void, ou “o vazio”, impresso nas paisagens aqui descritas, é uma marca profunda das catedrais subterrâneas que se foram formando ao longo de décadas, como um sinal identitário e peculiar, simultaneamente fascinante e assustador. Um vazio escondido entre as escombreiras e a bonomia da restante paisagem, que se torna presente através do pó branco, do calcário sentido no sabor da água, nas bancadas das cozinhas, na fachada dos edifícios, nas sacadas das varandas, nas ombreiras das portas ou até na calçada das ruas. Tal como no Metro, toda a atenção é pouca, por isso, perante o vazio, “mind the gap”. Porque as pedreiras são um não-lugar passageiro. Esta é a minha homenagem inacabada, a todos aqueles que ao longo de anos e gerações viajam ao centro da terra, sob um telhado de luz. Read Less
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The Void, Mind the Gap
por João M. Pereirinha

Memória Descritiva

The Void, ou “o vazio”, impresso nas paisagens aqui descritas, é uma marca profunda das catedrais subterrâneas que se foram formando ao longo de décadas, como um sinal identitário e peculiar, simultaneamente fascinante e assustador. Um vazio escondido entre as escombreiras e a bonomia da restante paisagem, que se torna presente através do pó branco, do calcário sentido no sabor da água, nas bancadas das cozinhas, na fachada dos edifícios, nas sacadas das varandas, nas ombreiras das portas ou até na calçada das ruas.

Um vazio, feito do amor e das vidas de todos aqueles que dedicaram por inteiro a sua vida, o seu suor, os seus medos, às vezes por gerações, à talha da pedra, habituados à vertigem destes arranha-céus invertidos, sobre os quais nos inclinamos. Autênticas pegadas de colossos, esculpidas pelos homens, que nos projetam para o centro da terra, antes do verbo da história, forjada há milhões de anos.

Mas “o que são vertigens? Medo de cair? Mas então porque é que temos vertigens num miradouro protegido com um parapeito? As vertigens não são o medo de cair. É a voz do vazio por debaixo de nós que nos enfeitiça e atrai, o desejo de cair do qual, logo a seguir, nos protegemos com pavor.”[1]

Um pavor muitas vezes substituído pela calma gélida da brancura que existe no centro do poço. Por uma tranquilidade idílica e majestosa, como um templo onde o homem é o Deus de todos os momentos, o Cronos da efemeridade de um espaço talhado a traços de sangue e suor.

Sendo natural de Vila Viçosa, um dos concelhos alentejanos que abrangem o Anticlinal de Estremoz, desde cedo me habituei à paisagem demarcada por subúrbios de pastas brancas, denominadas natas, por montanhas enormes de aterros com desperdício de pedra e às enormes crateras de mármore, que por vezes dão lugar a profundos lagos idílicos. Cresci e vivo atualmente a 200m de uma. Tudo isto é resultado da principal atividade do concelho, a extração e exploração de mármore, o “ouro branco” que sustenta não só a riqueza como grande parte do património arquitetónico e histórico locais. Só em Vila Viçosa há 119 pedreiras, das quais 33 continuavam ativas em 2015[2]. Algumas delas chegam a atingir 140m de profundidade[3], de forma totalmente abrupta, acessíveis apenas por um elevador de metal, até meio, e por escadas, que serpenteiam os níveis de cerca de 10m de altura, entre cada andar, até chegar ao fundo. Outras têm “serventias”, mais ou menos íngremes e acessíveis. E todas elas são fruto do esforço e da dedicação de homens que arriscam todos os dias a sua vida, encarando o vazio como o fruto de tudo o que lhes preenche a vida.

Neste projeto, onde visitei várias pedreiras locais - no seguimento de um trabalho que tenho vindo a desenvolver desde 2013[4], com várias visitas e registos - procurei retratar essa sensação paradoxal, de quem enfrenta o abismo diariamente, de forma simultaneamente deslumbrada e inconsciente, mas também aterradora e intimidada. À imagem de quem trabalha a pedra, começando por abrir uma fenda vertical no chão, derrubando uma parede maciça, da qual talha vários blocos com mais de dez toneladas, que serão transformados em chapas finas, por monolâminas e engenhos, também eu comecei com uma montanha com mais de 1200 imagens, das quais selecionei as 18 aqui presentes.

Uma pequena amostra da enorme coragem física de cada um destes homens e de outros tantos antes deles. Uma coragem colocada diariamente à prova, até na pausa para fumar um cigarro, a 70 metros de profundidade e de altura, simultaneamente. Desci inclusive a este patamar, na pedreira da “F. J. Cochicho e Filho, Lda”, desafiando o meu próprio medo de cair, assim como ao fundo da pedreira da “Dimpomar, Rochas Portuguesas, Lda”.

Tal como no Metro, toda a atenção é pouca, por isso, perante o vazio, “mind the gap”. Porque as pedreiras são um não-lugar passageiro.

Esta é a minha homenagem inacabada, como uma pedreira cuja paisagem está em constante mutação, a todos aqueles que ao longo de anos e gerações viajam ao centro da terra, sob um telhado de luz.

[1] Milan Kundera, in “A Insustentável Leveza do Ser”, 1984;
[2] DGEG - Divisão de Pedreiras do Sul, in “Caraterização do setor da extração de massas minerais.
Situação face à regulamentação técnica e legal”, 2016;
[3] Jorge F. Carvalho, Paulo Henriques, Patrícia Falé, Gabriel Luís, in “Decision criteria for the exploration of ornamental-stone deposits: Application to the marbles of the Portuguese Estremoz Anticline”, 2008.
1. Cabouqueiro perante um precipício de 70m de altura, a meio da pedreira.
2. Até aos 70m de profundidade há elevador, daí em diante, até aos 140m, só por meio de escadas, mais ou menos íngremes, com 10m de altura.
3. Há sempre formas menos ortodoxas de descer.
4. Estas pedreiras são autênticos monumentos, catedrais com a dimensão de arranha céus invertidos.
5. Até a pausa para o cigarro é feita à beira do precipício.
6. São utilizados rádios para falar com o manobrador da grua, no topo.
7. Aos poucos, vai-se abrindo uma nova fenda sobre o precipício cavado anteriormente.
8. A descida turbulenta no interior da estrutura metálica só é atenuada pelo pontilhado do gradeamento e a tranquilidade do local.
9. Perfurada e laminada pelo diamante, a pedra sucumbe com a ajuda da água, na qual se funde, criando a nata branca.
10. As gruas levam e trazem tudo, pedra, ferramentas e máquinas.
11. Mesmo a “meros” 10m de altura, com o peso das botas de aço, todo o cuidado é pouco e uma distração pode ser fatal.
12. Quanto mais avança a exploração, maior é o vazio abaixo de nós.
13. Grande parte da exploração continua a depender única e exclusivamente do esforço e trabalho manual dos homens que descem todos os dias até ao fundo da pedreira.
14. Assim como num ateliê, os blocos vão sendo dispostos conforme o acabamento que lhe seja destinado. Aqui o rosa invade a pedreira de cor e tranquilidade.
15. Sem serem projetados com esse objetivo concreto, cada buraco, cada pedreira, cada vazio, esmaga a nossa dimensão humana quase impercetível na imagem.
16. Algumas explorações começaram a abrir galerias, assim como a projetar novas formas ecológicas de reaproveitamento e divulgação local.
17. “As vertigens não são o medo de cair. É a voz do vazio por debaixo de nós que nos enfeitiça e atrai, o desejo de cair do qual, logo a seguir, nos protegemos com pavor.”
18. É preciso virar costas à voz do abismo, para conseguir enfrentar o dia-a-dia, mesmo com pavor.
Agradecimentos:

Como diria outro alentejano, Manuel Fonseca, “um homem só não vale nada”! Por isso, e porque este projeto não seria possível sem eles, quero deixar um agradecimento: à Rute Pardal, ao Manuel Claréu e ao José Luís Cochicho, que me permitiram e autorizaram a visitar a exploração da “F. J. Cochicho e Filho, Lda”; ao Diogo Ferreira, meu amigo que resolveu acompanhar-me; à Ana Silva e o Roberto Bilro, que me acompanharam à pedreira e à fábrica da “Margrimar - Mármores e Granitos, S.A.”, assim como ao David Benvindo pela autorização; ao Marcos Capelas, que me acompanhou à fábrica e à pedreira da “Dimpomar, Rochas Portuguesas, Lda”, transmitindo-me vários conhecimentos sobre a indústria, assim como ao João David pela autorização; à Anabela Consolado pela disponibilidade; à Joana Fonseca Pita pelos contactos e agendamentos; à Mariana Nogueira pelas informações; à Vanessa Pereirinha, que participou no trabalho de seleção da série; ao Rúben Gomes, pela discussão do conceito; e ainda à Paula Lopes e ao Luís Castanho, pela disponibilidade e carinho na impressão.

Não posso deixar de agradecer à minha mãe pela paciência e ao meu pai, que andou por lá alguns anos, a primeira pessoa a guiar-me por entre os caminhos de terra batida e lama. À Thaís Flôres pelo amor incondicional. E por último, uma homenagem póstuma ao meu avô, que dedicou mais de 50 anos ao buraco. Obrigado avô.
Ficha Técnica

Fotografias: 18 imagens dimensão 18cm x 27cm.
Impressão: papel fotográfico com brilho.
Ano: 2017.
Autor: João M. Pereirinha.
Equipamento: Canon EOS 450D, objetiva Sigma 18-200mm DC Macro OS HSM.