Ilustração Infantil
Trabalho de Ilustração Infantil para o livro Amigos de São Saturnino, de Francisca Prieto
2017 [ilustrações 25x25cm, técnica mista]
Capa, Amigos de S.Saturnino

Texto de Francisca Prieto
Ilustração de Sara Brito
Era uma vez um rapaz que, sempre que fazia um disparate, só ficava sossegado quando pedia perdão ao Menino Jesus.
Quando o disparate era pequenino, bastava-lhe olhar para o céu e dizer “desculpa” em voz alta, que logo sabia estar perdoado. Era uma boa tática porque conseguia voltar para o campo de futebol num instantinho, pronto para marcar uma data de golos.
Afinal, ele e o Menino Jesus eram amigos de longa data e não haviam de se aborrecer por coisas de somenos.
Mas quando a asneira era grande, o Rodrigo ficava tão envergonhado que não tinha coragem de conversar diretamente com Jesus. Era quando procurava a ajuda de São Saturnino. Calçava os ténis e lá ia ele, monte acima, por entre pinheiros e eucaliptos, até chegar ao cume e encontrar uma pequena capela branquinha, num lugar onde nada mais se ouvia senão o chilrear dos pássaros.
Era ali que se punha à conversa com São Saturnino, que era conhecido por ser muito compreensivo para com os rapazes. Contava-lhe a asneira que tinha feito e pedia-lhe que explicasse ao Menino Jesus que não tinha sido por mal, que não tinha pensado bem e que, quando deu por isso, já o caldo estava entornado.
Depois de rezar um bocadinho, descia pelo monte mais tranquilo, confiante na amizade de São Saturnino e na sua vontade de o ajudar.
Ora um dia, o Rodrigo achou que tinha muita graça escrever no muro da escola, com tinta vermelha, “A professora Olinda tem cara de gato”. Ao princípio foi a galhofa completa. Os colegas riam-se que nem uns perdidos e o Rodrigo não cabia em si de contentamento.
O pior foi quando foi chamado à direção da escola e entrou numa sala onde, para além do diretor, estavam os pais e a própria professora Olinda.
O Rodrigo não queria ofender a professora, até porque gostava muito dela. E assim que viu os seus olhos tristes, arrependeu-se imediatamente de ter escrito aquela parvoíce. E mais se arrependeu quando o diretor disse aos pais que ia obrigar o Rodrigo a pintar o muro e que teria de ser a família a pagar a tinta. Os pais não eram pessoas de posses e esta decisão deixou o Rodrigo muito aflito.
À tardinha, tinha o coração tão apertado e estava tão envergonhado que se meteu ao caminho até à capela de São Saturnino. Quando chegou àquele ermo que sempre o consolava tanto, ajoelhou-se junto à imagem do Santo e começou a explicar muito atabalhoadamente a odisseia em que se tinha metido.
De repente, ouviu uma voz:

— Não te preocupes, rapaz, são coisas que acontecem na tua idade.

O Rodrigo ia tendo um fanico. Por momentos achou que era São Saturnino a falar com ele. Mas depois percebeu que, num dos bancos da capela, estava sentado um senhor de idade.

— Não tenhas medo, que eu só cá estou para conversar com São Saturnino, tal como tu.
Dito isto, fez um gesto convidativo para o Rodrigo se ir sentar ao pé dele.
— Quando eu era rapaz também fazia muitas asneiras. E uma vez fiz uma das grandes aqui com o São Saturnino. Tão grande que até se tornou uma lenda. Queres ouvir?

O Rodrigo, que adorava uma boa história, acenou logo com a cabeça todo entusiasmado.

— Há muitos, muitos anos, quando eu era um rapaz pastor, calcorreava esta serra com ovelhas, cabras e borregos, à procura de boa erva para os alimentar. Um dia, desatou a cair a maior carga de água que eu alguma vez tinha visto. Como estava perto, alberguei-me aqui na capela, juntamente com o gado. Passaram-se muitos dias e muitas noites, mas não havia maneira de a chuva parar. Eu estava a ficar preocupado com os animais, que não paravam de gemer de fome. De maneira que me ajoelhei diante do altar e prometi a São Saturnino que, se ele parasse a chuva, eu lhe oferecia o melhor borrego do meu rebanho. Foi tiro e queda: o sol começou logo a raiar e o gado correu lá para fora direito ao pasto fresquinho.
O Rodrigo estava espantadíssimo com a história e queria saber se o pastor tinha cumprido a promessa.

— Cumprir a promessa foi o mais difícil porque, quando fui ter com São Saturnino para lhe dar o borrego e lhe perguntei onde é que ele queria que eu o deixasse, São Saturnino não me respondeu. De maneira que tive a brilhante ideia de deixar o borrego amarrado com uma corda aos pés do Santo. Eu não tinha lá muita cabeça naquele tempo.
— Então e depois, o que é que aconteceu? — perguntou o Rodrigo cheio de curiosidade.

O pastor continuou a história, mas agora com uma voz envergonhada.

— Bem, eu ia pela serra todo satisfeito, a tocar o meu pífaro, quando comecei a ouvir um grande berreiro atrás de mim. Ao princípio não liguei, mas às tantas a barulheira era tal que me virei para trás para ver o que se passava. Era o borrego que vinha desenfreado por ali abaixo e que trazia, de rojo, presa pela corda, a imagem de São Saturnino. Eu era um rapaz palerma, de maneira que não me ocorreu mais nada senão gozar com a situação. Encarei a figura e disse: “Olha, olha, ainda há pouco não ligaste nenhuma ao borrego e agora vens aqui a toda a velocidade a correr atrás dele”.
— E conseguiu salvá-lo, ao Santo? — perguntou o Rodrigo, ele próprio envergonhado pela falta de respeito do pastor.

— Essa parte é a pior de todas, porque na altura achei que tinha tido muita graça e atalhei caminho para o lado oposto ao do borrego. Passados uns dias corria na aldeia que a estátua de São Saturnino tinha sido roubada. Fiquei calado até hoje, com este peso no coração, a pensar na imagem partida em mil bocados e espalhada pela serra fora. Só te estou a contar a ti porque percebi que entraste nesta capela tão aflito como eu. Venho cá há vários anos pedir a esta nova imagem do Santo, que aqui colocaram, que me perdoe.
Rodrigo, que era um rapaz generoso, assegurou ao pastor que São Saturnino certamente já teria esquecido aquela tontaria da juventude. São Saturnino tinha um coração muito grande e estava sempre pronto a ajudar toda a gente.

— A minha tia, por exemplo, quando está com as febres dela, já sabe que basta roubar três telhas de uma casa e colocá-las ao pé do Santo. Fica logo boa. Até há quem chame a São Saturnino o ladrão das telhas, mas eu acho isso muito injusto porque nunca é ele quem as rouba, são sempre as pessoas que têm as febres. Ele só precisa das telhas para as aliviar.
O pastor sorriu porque conhecia este costume.

— Tens razão, São Saturnino está sempre pronto para proteger as gentes daqui de Ferreira do Zêzere. No verão farta-se de trabalhar para afastar os incêndios e, mesmo assim, não vá o diabo tecê-las, arranjou maneira de construírem mesmo aqui ao lado um depósito de água, para o caso de a sua intervenção divina não ser suficiente.
Lá fora a noite tinha caído sem Rodrigo se dar conta. Era preciso descer a serra o mais rapidamente possível para não preocupar os pais, mas o rapaz não queria deixar o novo amigo ali sozinho.

— Não te preocupes, fico aqui a conversar mais um bocadinho com o nosso Santo. O importante é chegares a casa a horas do jantar.

O pastor abriu os braços num gesto de ternura e depois tirou do bolso um papel misterioso. Era um mapa com um atalho para chegar à aldeia em poucos minutos.

Rodrigo ficou a pensar se não teria havido ali intervenção de São Saturnino, mas, pelo sim, pelo não, deixou-se de divagações e desatou a correr a toda a brida até chegar a casa.
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