o ar à sua volta
o ar à sua volta
tinta-da-china e àgua sobre papel de algodão
A série de quatro desenhos “o ar à sua volta” é um estudo sobre a criação de uma paisagem numcampo vertical. Neste caso a água foi borrifada sobre a tinta-da-china. Opincel serve apenas como veículo para colocar a tinta no papel, num determinadolocal do campo visual. Construi um pincel que tinha de manipular com ambas asmãos com 50cm largura e duas pegas e ampliei o campo para 140x210cm, deixei dedesenhar só com uma mão e passei a usar todo o corpo no gesto de imprimir atinta no papel.
A água aplicada com o borrifador permitia deslocargrandes quantidades de tinta-da-china e abrir espaços nas pinceladas. Estesespaços eram desenhados pela água e pela gravidade e tinham um movimentodiferente do executado pelo pincel. Isso permitiu uma descolagem entre os doisritmos, o criado pela pincelada de tinta e o outro pela queda da água.
“oar à sua volta” é primeiro de tudo um ato performativo deque aqui se dá conta no pequeno filme apresentado no início. O uso de todo ocorpo no ato de desenhar foi indispensável na execução destes trabalhos.Controlar os borrifos da água na execução das manchas cinza foi igualmentedecisivo. Colocados na vertical é possível ampliar o espaço representado,deixando o branco prolongar-se para fora do espaço do desenho. Para ter acerteza desta decisão foi importante o estudo que realizei sobre as gravurasjaponesas e sobretudo sobre o caderno de desenhos de Hiroshige onde o branco dopapel e os brancos das formas representadas nos desenhos desempenham um papelna compreensão da paisagem e ampliam a compreensão do espaço.
O vazio no centro do desenho põe questões interessantesao observador que procurará sempre pontos de apoio para se relacionar com oespaço representado. As manchas de tinta têm movimentos oblíquos ou curvos eportanto são compreendidas como movimentos desequilibrados. O único local ondeexiste horizontalidade é nas manchas cinzas da água e será aí e no brancocentral que focará a sua atenção.
Jamais poderia ter trocado a ordem das séries executadas,destas e das outras que lhes deram origem, porque passei para a seguinte sempreacrescentando algo à descoberta anterior. As escolhas feitas aqui apresentadas sãoum mergulho num espaço/tempo onde se criam representações de emoções.

“Não creio que exista no mundo um silêncio maisprofundo que o silêncio da água. Senti-o naquele dia e nunca mais o esqueci J.Saramago.

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desenhos a tinta-da-china e água sobre papel de algodão
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