Relatos - Telas
Largo das Artes, Rio de Janeiro
2009
SOBRE OS RELATOS DE LENA BERGSTEIN

“Mas a pintura é superior e reina sobre a música, porque ela não morre imediatamente depois de sua execução como a desventurada música, senão que permanece e te mostra com vida o que de fato é só uma superfície” (Leonardo Da Vinci) (1)

A divisão clássica entre as artes do tempo e as artes do espaço usada por Da Vinci para defender a superioridade da pintura sobre a música fundava-se, por um lado, na eternidade espacial da primeira e, por outro, na efemeridade desta última. Centrava-se, portanto, nas características finais da obra pictórica, que se apresenta completa numa única superfície, e da obra musical, cuja recepção desdobra-se no tempo e evapora-se ao final de cada execução.

Superada definitivamente pelas primeiras manifestações contemporâneas no começo da década de sessenta - happenings, filmes e vídeos de artista, etc. - essa antiga divisão, reiterada ainda duas décadas antes por Pierre Francastel (“todas as artes plásticas são artes do espaço”) (2), desconsiderava não só a temporalidade investida nos processos de produção e de fruição da pintura, como também a expansão espacial da música a partir do lugar de sua emissão.

Ainda que toda pintura condense integralmente, numa única e mesma superfície, o tempo de sua concepção e elaboração e suscite o tempo subjetivo de sua observação pelo público, poucos artistas vêm trabalhando para revelar essa temporalidade oculta e indissociável do espaço pictórico. Dentre estes situa-se Lena Bergstein, já que sua obra nos desvela algumas características temporais inerentes ao teor espacial do campo pictórico.

Suas pinturas são tecidas de cores e palavras. Como nas gravuras por ela anteriormente produzidas - onde a escrita possuía tanto uma função gráfica, quanto semântica - a palavra, aqui, não determina a configuração do espaço da obra, qual ocorria na poesia concreta dos anos cinquenta. Tampouco é porta de entrada da compreensão do trabalho, como na arte conceitual da virada da década de sessenta para a de setenta.

O registro permanente de palavras pela escrita permitiu ao homem superar a dissipação característica da sonoridade verbal. Seu fluxo evanescente pôde desde então ser fixado graficamente no espaço e com isso, além de ouvido, passou a ser também visualizado.

Entretanto é preciso considerar que apesar da escrita e da produção pictórica partilharem espaços semelhantes - já que o papel e a tela são suportes bidimensionais - suas lógicas e finalidades, antes muito próximas, tornaram-se, sobretudo no Ocidente, diversas e separadas.

A palavra grafada precisa reproduzir espacialmente o fluxo da fala, cuja disposição linear na página determina, em princípio, uma única sequência de leitura. Difere, portanto, das múltiplas possibilidades experimentadas quando o olhar incide sobre formas e imagens, cuja lógica é regida não por normas permanentes, mas pela livre associação entre devaneio e informação.

Pintadas pela artista, as palavras abandonam o espaço gráfico ao qual pertenciam, deixando-se contaminar pelo campo pictórico e pela perenidade transcendente a ele atribuída. Mas ao inscrevê-las na tela, Bergstein também contamina sua pintura com indícios temporais e narrativos evocados pelo espaço gráfico no qual a escrita é comumente registrada.
Ao reunir, pelo gesto, escrita e cromatismo, Lena produz uma narrativa que não se consuma na leitura nem tampouco, plenamente, no âmbito visual que sobredetermina todo o seu trabalho. Seu sentido poético situa-se, assim, entre a imagem e a palavra, a forma e o grafismo, sinalizando a temporalidade subjacente à pintura, invisível para a maioria de seus observadores.

Emersas das cores, as palavras são aqui, quase sempre, de leitura difícil, exceção feita aos livros-telas, nos quais aparecem mais definidas. Ainda assim, quase nunca chegam a formar frases. São sopros de subjetividade que extraem das palavras sua vocação semântica mas que, simultaneamente, recusam a clareza do comando ou da narrativa que elas por natureza poderiam promover. Elas não estão ali para submeter o olhar ao esclarecimento verbal, mas para, com a cor, formar a delicada tessitura visual de pinturas que parecem produzidas pelo adensamento espacial do tempo, elemento poético essencial desses trabalhos.

Se nas telas o tempo condensa-se num mesmo e único espaço, nos livros-telas seus fluxos são literalmente restaurados a partir do encadeamento das páginas característico do universo da escrita. Há aqui uma outra modalidade narrativa que se esclarece, como nos quadros, por meio da tênue analogia tecida entre os espaços gráfico e pictórico, por Lena Bergstein. Criados pela artista por meio de sequências específicas de telas-páginas nas quais a fatura pictórica e inscrição das palavras não difere, de maneira substantiva, daquela dos quadros, estes fluxos renascem a cada vez que o manuseio do espectador os desdobra e atualiza.


Fernando Cocchiarale

Notas
(1) in DA VINCI Leonardo. Tratado de la Pintura, Buenos Aires, Editorial Losada, 1943. p. 21
(2) in FRANCASTEL, Pierre. A Realidade Figurativa, São Paulo, Editora Perspectiva, 1982. p.123

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