Moro em São Paulo desde que nasci, e sempre ouvi algumas descrições sobre minha cidade, como "cidade que não dorme" "cidade caos" "cidade da correria". Quando se está inserido na rotina de uma cidade como São Paulo, sabemos que não podemos negar tais adjetivos, somos muito acelerados e acostumados ao tal "caos". Me deparei com a inquietação que deu origem a esse projeto em 2013, ano em que meu primeiro emprego fez da minha rotina casa-trabalho-faculdade, uma permanência dentro dos transportes públicos de por volta de 4 horas por dia.

Em certo momento, houve uma sensação de vazio naquelas viagens, as pessoas andando em fileiras, o trem estacionando no mesmo horário todos os dias, as multidões tentando entrar nos vagões, os olhares e pensamentos vagos e distantes, procurando sempre evitar o contato visual. Tudo aquilo foi criando um incômodo interno,  em que o ambiente transmitia um cansaço mental e físico que parecia não ter explicação, então que me perguntei: O que tanto me incomoda nesse lugar?, e foi atrás de explicações, que comecei a observar melhor o comportamento das pessoas e me atentar aos acontecimentos rotineiros.  Posteriormente, vi a necessidade de se aprofundar em uma pesquisa para entender melhor o contexto atual de nossa sociedade, e me deparei com uma grande identificação nos pensamentos de escritores que falam sobre a pós-modernidade como Zygmunt Bauman, Gilles Lipovetsky, Ulrich Beck e outros.

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I live in São Paulo since I was born, and always heard some descriptions of my city, as "the city that never sleeps" "chaos city" "city rush". When it is inserted in the routine of a city like São Paulo, we know we can not deny such adjectives, because we are very accelerated and accustomed with this "chaos." I came across the concern that gave rise to this project in 2013, the year of my first job, that made my routine home-work-college, stay within the public transport around 4 hours a day.

In a moment, there was a feeling of emptiness in those trips, people walking in lines, the train parking at the same time every day, the crowds trying to get in the cars, the blank stares and distant thoughts, always trying to avoid eye contact. Everything was creating an internal uncomfortable, that atmosphere conveyed a mental and physical fatigue that seemed to have no explanation, then I wondered: What bothers me so much in this place ?, and followed explanations, I began to have better look to the behavior of people and I pay attention to routine events. Later, I saw the need to delve into research to better understand the current context of our society, and I came across a great identify the thoughts of writers who talk about postmodernity as Zygmunt Bauman, Gilles Lipovetsky, Ulrich Beck and others.

Os pensadores definem essa época através do conceito de liquidez, que é a era na qual nada persiste; as identidades parecem fixas e sólidas mas são frágeis e vulneráveis e que em um geral, estamos carentes de certeza, e de princípios norteadores, tudo se tornou relativo. Uma das características da pós-modernidade que acabou ganhando destaque nesse projeto pela proximidade de identificação aos fatos vivenciados, é o individualismo, que aponta como cada vez mais estarmos centrados em prazeres próprios, no culto ao corpo e a evitar o contato com o outro. Nesse âmbito, alguns fatores contribuem para a acentuação desses aspectos e causam grande parte dos comportamentos em sociedade que venho criticar através desse projeto. A tecnologia, por exemplo, foi algo que revolucionou nossa relação, estamos tão próximos, mas tão distantes ao mesmo tempo, estamos conectados para nos desconectar da vida real, nos prendemos nas telas e não olhamos mais para o lado, para o próximo.  A nova sociedade é a da informação fragmentada, do tempo é dinheiro, onde tudo acontece e acaba muito rápido, assim acabamos esquecendo nossas relações, a empatia, a importância dos pequenos atos e o respeito ao próximo.

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Thinkers define this time through the concept of liquidity, which is the era that nothing remains; identities seem fixed and solid but are fragile and vulnerable, in general, we are in need of certainty and guiding principles, everything has become relative. One of postmodernity features that just gaining prominence in this project by the proximity identification to experienced facts, is individualism, which points as increasingly being focused on own pleasures, the cult of the body and to avoid contact with each other. In this context, several factors contribute to the emphasize of these aspects and cause this causes many of the things I criticize through this project. The technology, for example, was something that revolutionized our relationship, we are so close but so far away at the same time, we are connected to disconnect us from real life, we are stuck on the screen and don’t look to the side, to the others. The current moment is the fragmented information, “time is money”, where everything happens and ends up very fast, so we forget our relationships, empathy, the importance of small acts and respect for others.
Tendo como base esses conceitos, percebi como presenciamos situações que evidenciam esses conceitos todos os dias.

Somos bombardeados por notícias sobre violência, corrupção, preconceito, xenofobia, intolerância, etc. Podemos ir de casos mais extremos até os pequenos atos, de fome a corrupção, até a falta de educação no trânsito. As peças se encaixam quando entendemos que dentre os milhares de motivos possíveis que fazem com que essas situações ainda aconteçam, um deles, muito provavelmente será por conta de pessoas envolvidas com o seu individualismo, suas angustias e sua desvinculação social.


Quando tive essa visão ampla, consegui entender claramente o que tanto me incomodava naquele ambiente dos transportes. As pessoas estavam imersas em seus mundos, nos seus fones de ouvidos, livros etc, com olhares e pensamentos distantes, procurando sempre evitar o contato visual e físico. A angústia de chegar logo ao destino, de ser tolerante a convivência no coletivo, formava a pressão e anestesia.

Eu precisava expressar aquilo de alguma forma, e a forma que eu melhor conseguiria traduzir seria através da fotografia.


Posteriormente eu senti a necessidade de dar um nome ao projeto. Um nome que sintetizasse e explicasse todos esses conceitos e transmitissem a mensagem central. O nome escolhido foi Vagante. A ideia de ser vago, vazio, faltante, também foi aproveitada nos elementos gráficos do logo.


PENSAMENTO VAGANTE
OLHAR VAGANTE
PASSAGEIROS VAGANTES
ATENÇÃO VAGANTE

Uma paleta de cores foi escolhida, para que as fotos ficassem mais expressivas e transmitissem a mensagem desejada. Os tons frios foram escolhidos para as séries de Solidão, Multidão e Vazio. e os tons quentes para
O roteiro de fotos não foi estritamente definido, mas procurei fotografar em horários estratégicos como 18hrs da tarde (horário de pico, muito cheio), 4:40 da manhã( horário de abertura do metrô, costuma ser vazio.)

Foram utilizados diversos modelos de câmeras, analógicas e digitais, grandes e pequenas, afim de testar qual seria menos chamativa e atendesse as necessidades.

No momento que eu já tinha uma boa quantidade de fotos, percebi que elas estavam todas misturadas mas que eu poderia separá-las em séries por proximidade.

Então cheguei as séries: Vazio, Solidão, Multidão e Insólito.




Esse trecho de uma entrevista de Bauman consegue traduzir muito bem o objetivo desse projeto. Nela ele relaciona a descoberta de Edward Lorenz, sobre o efeito borboleta: como o bater de asas de uma simples borboleta poderia influenciar o curso natural das coisas e, assim, talvez provocar um tufão do outro lado do mundo:

Lembro que nessa descoberta de Lorenz também há um vislumbre de esperança. Consideremos o que uma borboleta sabe fazer: uma grande quantidade de coisas. Não ignoremos os pequenos movimentos, os desenvolvimentos minoritários, locais e marginais. A nossa imaginação vai longe, além da nossa habilidade de fazer e arruinar coisas. Na nossa história humana, tivemos um número relevante de mulheres e de homens corajosos, que, como borboletas, mudaram a história de maneira radical e positiva. De verdade. O único conselho que posso dar, então: olhemos para as borboletas, são de várias cores, felizmente são muito numerosas. Ajudemo-las a bater as suas asas.


Zygmunt Bauman
Thank you!
Vagante
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Vagante

Projeto fotográfico que procura expressar conceitos pós-modernos colocados por pensadores como Zygmunt Bauman, José Saramago, entre outros, atrav Read More
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