"A Insustentável Leveza do Espetáculo"
«A Insustentável Leveza do Espetáculo»
 
 
Instigado a pensar e refletir sobre quais seriam as possibilidades da fotografia de espetáculo percebi que o que me interessaria registar, produzir e mostrar ao longo do meu projeto seria o “peso do espetáculo”. Inspirado nas palavras de Patrice Pavis, referindo que para entender e descrever os espetáculos vivos «seria preciso começar do zero», embora isso se avizinhe «tão ingrato quanto impossível», pretendia precisamente explorar esse lado mais nu, mas ao mesmo tempo concreto, do espetáculo. A pergunta impõe-se, não seria interessante mostrar aquilo que ele é, além da forma como se apresenta? Isto é, além da forma final a que todos assistimos? Pois, normalmente, aquilo a que temos acesso, num espetáculo, é sempre um produto final onde só se revela uma pequena unha, dedo ou mão do trabalho total invisível tanto no dia de assistência como nos anteriores e posteriores. 

 
© João M. Pereirinha | 2013
A ideia de “Peso” surge também na expressividade e composição da música de Caetano Veloso, «If you hold a stone», uma obra dedicada à artista plástica Lygia Clark e ao seu trabalho que remete precisamente para a necessidade de sentir o peso de algo nas mãos para que, na sua materialidade, o consigamos entender («If you hold a stone/Hold it in your hand/If you feel the weight/You’ll never be late/To understand»).

Mas o que é o peso? No Dicionário da Língua Portuguesa há vários significados para ‘peso’, dos quais destaco os seguintes: 2. [Física] Resultado da ação da gravidade sobre cada uma das moléculas de um corpo. 3. Pressão exercida por um corpo sobre o obstáculo que se opõe diretamente à sua queda. 8. O que preocupa ou tem de ser suportado. = FARDO. 10. Força e eficácia das coisas não materiais. 11. Influência ou importância de algo ou alguém. 12. Ponderação, sensatez. 13. Consideração. 14. Solidez. 15. Aprumo. . 20. [Física] Gravidade. 21. [Mecânica] O que deve ser elevado ou movido.

Junto à terminologia de peso há uma outra que se liga e, tantas vezes, se confunde: a ‘massa’. No fundo, e fazendo uma ligação conveniente ao caso, pode-se dizer um é o resultado do outro, mediante a força da gravidade, assim o explicariam os físicos. Ou seja, é na existência da massa, enquanto substância compositiva e constituinte de algo, que o peso se torna significante mediante a atuação da força de atração entre os corpos.

Todavia, como produzir um ensaio, trabalho, fotográfico em volta do peso do espetáculo tendo como ponto de partida uma casa que não tem, na sua génese, uma produção fixa ou uma companhia residente a produzir um espetáculo planeado no espaço e no tempo? Em boa medida há uma sala à disposição que, além de apresentar espetáculos, pouco mais faz? Sem uma calendarização que disponibilize uma matéria gravitacional sobre a qual nos podemos concentrar? Desta forma, há que dar significado ao peso cujo resultado final desta avaliação reflete-se numa descomunal leveza na produção, uma: ‘insustentável leveza do espetáculo’ que se caracteriza não só pela inexistente produção contínua espetáculo como, consequentemente, de artistas. «“producere” quer dizer “produzir”, “dar existência a”, isso não se aplica apenas a livros, também podemos possível produzir artistas», Hugo Ball.

Este termo, da insustentável leveza, é também uma clara apropriação ao título da obra literária “A Insustentável Leveza do Ser”, de Milan Kundera, uma obra na qual, à parte de muitas outras coisas, o autor nos leva a refletir como a leveza, a liberdade de compromisso e a ausência de corpo, podem também significar um peso e um fardo enormes para quem a vive e suporta. Ser leve não é o mesmo para todos, e nem tudo o que é leve é sustentável. Um e outro, leveza e peso, podem ser negativos e positivos.

Se não, imagine-se um balão de ar quente. É leve, tão leve que, a certo ponto, se torna insustentável. 

Em certa medida era essa a ideia que pretendia explorar. Através dos corredores, das salas, camarins e outros espaços inerentes na arquitetura do teatro, partir para a criação de fotografias que tenham presente essa leveza. Para tal a ideia inicial que me ocorreu seria, nesses espaços íntimos, de criação, explorar mecanismos, representações, composições, através de um ator/performer, que pudessem significar esse processo de produção, colocar bailarinos em cena. A dança, como significante dessa “levitação” sobre o concreto, e neste caso, o único concreto é a arquitetura, as paredes, a argamassa que, sós, nada significam para espetáculo. Ao mesmo tempo, estaria a proporcionar um espetáculo, embora fictício. 

Mas tudo isto é tão concreto, tão definito, tão racional. Tão estruturado que se torna impossível! Será isto fotografia? Eça de Queirós, no seu texto “Positivismo e Idealismo”, de 1893, diz-nos que “o homem desde todos os tempos tem tido (…) duas esposas, a razão e a imaginação, que são ambas ciumentas e exigentes (…) entre as quais ele até agora viveu, ora cedendo a uma, ora cedendo a outra, sem as poder dispensar e encontrando nesta coabitação de bigamia alguma felicidade de paz. Assim, Arquimedes tinha por emblemas na sua porta um compasso e uma lira”. Ora, no meu entender, ser-se fotógrafo é precisamente isto, saber viajar entre uma e outra, ir e voltar entre a imaginação e a razão, e no final se não produzir, pelo menos viajar com as imagens. Encontrar a magia dentro de cada imagem e projeto, brincando e com a imaginação.

A Magia, enquanto forma artística de espetáculo em comunicação com um público é um terreno muito fértil e, ao mesmo tempo, uma arte por excelência. Isto porque, de todas as outras onde existem inúmeras dúvidas e problemas de catalogação, a magia, independentemente do estilo em que nos é apresentada, parte sempre de uma premissa fundamental: a ilusão. Todos nós sabemos – espero que os mais crentes não estejam a ler este texto - , quando vamos para uma apresentação de magia, que vamos ser enganados mas que isso não importa, nós queremos ser enganados. É o tipo de engano que, no final, nos faz sorrir e aplaudir. E a frustração consiste precisamente da fiabilidade de grau maior ou menor com que o engano nos é impingido. Nas outras artes, em geral, a ilusão e a magia também fazem parte, mas normalmente, porque não conseguimos partir desse pressuposto, e porque queremos que tudo esteja bem organizado e catalogado, temos dificuldade em nos deixar cair na ilusão.

A fotografia é um espaço onde a ilusão deve ter um lugar primordial. Tem, um lugar primordial, podemos é não estar atentos a ele. A primeira ilusão consiste em enganar toda a gente – ou pelo menos formar essa ideia na população em geral – que a lente é um olho imparcial que consegue captar a realidade tal qual ela é, somente. Este é o meu truque de magia, a uma leveza insustentável de coisa nenhuma, de corpo algum num nenhures de lugar.



Projecto desenvolvido no âmbito da Escola Informal de Fotografia - Teatro Académico de Gil Vicente, coordenação de Susana Paiva. Com apresentação a 12 de Julho de 13. 

Exposto na Casa das Artes, Coimbra. Iniciativa integrada na Exposição Com Fotógrafos Da Escola Informal de FotografiaFotografia/Multimédia Encontro Internacional - Coimbra 2013, Parte III".
 
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