Conjunto de serigrafias baseada nos textos do meu amigo Victor Rosa.

Serigrafias em 2 cores, papel Sahara 180g, impressa pelos amigos do Estúdio Elástico.
 
A Zine Visceralma contém a compilação de todas as obras e textos, impressa em papel Polén 90gr, 1 cor, diagramada
e costurada a mão com muito amor e carinho pela Raquel Luna.
 
A inauguração da Exposição Visceralma aconteceu no dia 9 de abril de 2015 no Brooklin Coletivo, onde ficou por 1 mês.

Minha primeira exposição em São Paulo, um dia muito especial <3
 
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Hoje ela acordou e não precisou da sua ajuda pra levantar, nem pra abotoar o sutiã.
Ela não sentiu sua falta no café... saiu de jejum... Nunca come de manhã.
Ela fumou um Marlboro Light no caminho pro ponto, um do ponto pro trabalho, outro no almoço e mais 7 durante a tarde...
Como de costume.
Ela conversou, ouviu e leu sobre qualquer coisa...
Ela não precisou de você pra ganhar um bom dia e a ausência disso não causou nenhuma catástrofe natural naquela segunda-feira. Tirando a chuva forte que já estava na previsão.
Ela teve um dia corrido no trabalho e não precisou de você pra ouvir sobre isso.
Ela voltou pra casa, tomou banho cantando, saiu do chuveiro e não chamou por você pra matar aquela barata.
Ela jantou e pensou nos planos, fez ioga e esvaziou a mente, fez os rituais e foi pra cama... sem seu “boa noite”.
Ela dormiu em menos de dez segundos... Você sempre achou isso demais.
Você sabe... Porque nessa segunda-feira você foi o alarme, o espelho, a colher de açúcar, você foi a conversa sobre qualquer coisa, foi o guarda-chuva na bolsa, foi uma canção qualquer na cabeça, foi o chinelo mais próximo...
Você foi aquele segundo prato que não foi pra mesa... foi a luz do corredor deixada acesa... Você invejou qualquer coisa que pudesse tomar conta, qualquer objeto que portasse algum tipo de gentileza....Qualquer coisa que pudesse estar lá, sem ser notada.
Eu sou a Razão, e quero te dar a verdade, nada além da verdade. E se meu zelo às vezes te invade, é porque sei que ninguém nesse mundo se livra do peso e da sorte de sentir saudade.
 
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Começa do fogo, no contato com o lábio, na camada densa de ar que eu movo pra te tragar e encher o meu peito.
Te seguro por um tempo e aproveito o sabor de você que carburei.
Solto o ar e deixo você correr livre em mim, te deixo fazer o estrago que quiser.
Brinco com a sua fumaça enquanto vejo qualquer casal passar na noite fria lá embaixo.
Somos só eu e você há um tempo...
Adoro o conforto que você causa, é como se eu pudesse aguentar mais um round de qualquer coisa.
É como um diálogo fantasma que eu não tenho mais.
Te procuro quando acordo, depois do almoço e entre qualquer café..
No intervalo de qualquer reunião, te procuro pra ter a nossa conversa...
Aquela onde eu te chamo sem dizer nada, sem pedir licença e eu te conto sobre tudo e nada ao mesmo tempo...
Adoro como nossas conversas não tem meio, fim nem começo.
Gosto quando às vezes você tem um leve gosto de menta e esfria minha garganta.
Tudo tem funcionado bem, mas de uns tempos pra cá, sinto que alguma coisa mudou...
Meu peito pesa quando preciso de você e eu já não respiro da mesma forma...
Parei de te ver e precisar de você me maltrata... Me pego pensando em que tipo de conversas teríamos hoje...
E como tem certas coisas do meu dia que praticamente suplicam pela sua presença.
Te substituo por alguma pastilha ou qualquer adesivo que não para no lugar...
Não consigo mais olhar pros nossos lugares nem jogar fora aquele cinzeiro.
Acerto a conta em qualquer padaria e olhar pra vitrine do caixa é como se eu estivesse a uma ligação de distância...
Mas não estou!
Talvez qualquer dia eu ligue e te proponha um café... Uma conversa em qualquer lugar.
Talvez você seja só mais um mau-hábito que eu preciso me livrar.
 
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Farejei você de longe...
Sigo seu rastro e reconheço a nota de amêndoa da sua pele.
Sou morada de uma besta cega que te fita no escuro, uma monstruosidade que devora seu sonho mais puro.
Que quer te comer viva. Te cravar os dentes... Decorar seus caminhos pela boca.
Sentir seus salgados e doces.
Ver de perto o momento que você se arrepia quando meu hálito atravessa alguma fraqueza sua.
O instinto não passa fome.
Meu lobo vai ler sua mente, ler seus sinais, descobrir o que você quer... exatamente como quer...
E inventar um dialeto do corpo que só fala com o seu.
Vou te ver mudar o semblante, descobrir sua pior conduta...
Te lembrar do seu lado que morde, que arranha...que grita meu nome.
A minha besta tem fome pela jornada do seu ápice... E saboreia cada momento disso.
Desde a subida do ritmo, passando pela respiração afoita, chegando às mãos que escalam os lençóis e só acham a cabeceira...
E termina com aquele incrível microssegundo mudo que antecede sua expressão máxima, da qual você não sobrevive...
Repousa ombros, quadril, pernas e aceita a derrota com um sorriso que respira uma mecha do seu cabelo.
Na minha sombra mora um monstro. Uma bestialidade que me aguça os sentidos...
Que debocha do casto e te devora por dentro a noite toda, pra te invadir e esperar o sol da manhã projetar sua imagem na parede.
E a partir dali... na sua sombra mora um monstro.
 
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Todo professor de desenho que passou por mim disse a mesma coisa:
“Você é muito afoito pra chegar nos detalhes.”
Às vezes me falta estrutura... Mas os detalhes não me fogem.
Simplesmente não dá pra evitar...
É como quando você achou que eu não estava olhando... mas percebi que quando você lê, seus olhos mudam de expressão a medida que a história se desenrola, e é como se você interpretasse os personagens em silêncio no palco da sua cama.
Você achou que eu não estava olhando, mas seu tom de voz subia um micro nuance de nota pra falar comigo...
Você achou que eu não estava olhando, mas eu decorei todo seu universo gestual, suas mãos que imitavam um arco e um violino quando ouvia sua música, com um dos seus melhores sorrisos...
O ar cômico de maturidade que você adota pra cozinhar...
Sua moleza quando bebe vinho, seu rosto corado, seu humor livre e bobo...
Você pode pensar que eu não estava olhando, mas eu trabalhava duro pra arrancar aquela sua gargalhada que te franzia o nariz e terminava com aquele olhar marejado que eu atravessava a cidade a qualquer horário pra ver...
Você achou que eu não estava ouvindo, mas eu simplesmente me distrai por um segundo com alguma mecha do seu cabelo no vento e te achei bonita demais pra mim...
Eu sorri sozinho hoje quando achei um bilhete seu escrito a mão.
Sorri pra como você não tinha pressa quando pôs as palavras no papel. Sua caligrafia elegante.
Uma pena eu gostar tanto dos detalhes...
Talvez um pouco mais de atenção e eu tivesse notado o texto do seu bilhete que dizia:
Adeus...
 
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Atravessei cinco infernos pra proteger seu nome.
Me neguei a te maldizer por conveniência.
Vivi cinco estágios de luto e preservei sua memória.
Guardei de você os pequenos momentos que me fizeram tão grande...
Porque prefiro encarar a luta de aceitar um fim, sem manchar o que foi bom...
Porque ódio é bagagem... Porque culpa é inútil... E porque amar também é desapego.
Comemorei cinco vezes aquele dia com você... e lamentei mais cinco vezes até reparar que eu me nego a me traumatizar com o amor.
E que nesse mundo todos nós vivemos nossas futilidades, e fazemos nossas besteiras e podemos nem saber pra
onde estamos indo às vezes.
Porque esse mundo não passa de uma busca eterna por aquela fagulha de vida que existe em dividir o você com o outro.
Esse mundo não passa de um cenário montado pra captar os momentos que você amou tanto, que se sentiu mais de um...
Os momentos que você foi dois, e criou uma visão do futuro onde seriam três.
No fim, não importa até onde você chegou, mas os momentos em que você se multiplicou e foi por sagrados segundos,
mais do que você mesmo.
Eu sempre vou conseguir amar.
O meu amor não é de posse de ninguém apesar de dividi-lo com quem eu quiser...
Ele não está enclausurado no passado de alguma pessoa que se foi e nem especula morar no futuro de uma próxima que nem veio.
O meu amor é meu... Ele anda comigo.
Quando ele resolve judiar, sou eu quem carrega os ossos quebrados...
Quando resolve mostrar seu melhor, é o melhor de mim que ele mostra.
O meu amor é meu... E com ele, me entendo eu.
 
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Sobre amor e relacionamentos.
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