• Add to Collection
  • Tools Used
  • About

    About

    Pedras de Água* ‘Ser de água’ é o tema proposto para 2013, na Semana Cultural da Universidade de Coimbra. Indo ao encontro deste tema, e todas a… Read More
    Pedras de Água* ‘Ser de água’ é o tema proposto para 2013, na Semana Cultural da Universidade de Coimbra. Indo ao encontro deste tema, e todas as suas potencialidades, como fotógrafo, procurei explorar esta forma através da arte de escrever com luz. Possivelmente não existirá forma de vida para a qual a água não seja essencial. Boa parte da evolução humana foi conduzida e guiada pelos canais de acesso à água, esse elemento que tudo é capaz de se transformar. Eu nasci e cresci numa das zonas mais áridas do país, no Alentejo. Mais propriamente na zona designada como do “Ouro Branco”, que engloba pelo menos os concelhos de Vila Viçosa, Borba e Estremoz. É assim denominada devido à principal atividade económica: a exploração, extração e transformação de mármore. Um ciclo em que a água é fundamental em todas as fases e um elemento que não só transforma como se transforma. É graças à água que se consegue amolecer a pedra, que é extraída das pedreiras, autênticas crateras a céu aberto, e cortada em blocos paralelepípedos de várias toneladas ou em chapas finas através de monolaminas afiadas. E é a mesma água, finda a vida e a atividade de uma das inúmeras crateras profundas que existem - deixadas muitas ao abandono – que se ocupa de preencher o vazio deixado pela pedra. Dando lugar a lagos, uns mais vertiginosos que outros, uns mais poluídos que outros, onde antes estavam precipícios. Inclusive quando ainda a atividade humana ainda não sessou já a água reclama o seu lugar, preenchendo os fundos vertiginosos que podem atingir cerca de 180m, aproximadamente 60 andares. É também pelas marcas que deixa nas maquinarias e nos materiais que podemos ver ação do tempo e do abandono através da água, totalmente cobertos de ferrugem avermelhada e plantas selvagens que os envolvem. Estas são as pedras de água que captei com o sensor da minha máquina, autênticas minas de tesouro transparente pronto a ser reaproveitado, como em alguns casos já acontece, e impacientes por recomeçar um novo ciclo. Locais apocalípticos, variando entre gruas gigantescas, montanhas de natas – nome que se dá à massa de pó de pedra com água resultante dos cortes produzidos nos blocos -, aterros de pedra inútil, crateras gigantes e lagos idílicos. Pedreiras de água, que se transformaram por inércia humana, num local onde tantos anos escasseia o acesso a esse bem precioso. * Publicação do projeto fotográfico em #10 Série VI, Águas 1000 - Revista Via Latina, pp. 42-53 Read Less
    Published:
"Pedras de Água"
Vila Viçosa
 
PT
‘Ser de água’ foi o tema proposto para 2013, na Semana Cultural da Universidade de Coimbra. Indo ao encontro deste tema, e todas as suas potencialidades, como fotógrafo, procurei explorar esta forma através da arte de escrever com luz.
Possivelmente não existirá forma de vida para a qual a água não seja essencial. Boa parte da evolução humana foi conduzida e guiada pelos canais de acesso à água, esse elemento que tudo é capaz de se transformar. Eu nasci e cresci numa das zonas mais áridas do país, no Alentejo. Mais propriamente na zona designada como do “Ouro Branco”, que engloba pelo menos os concelhos de Vila Viçosa, Borba e Estremoz. É assim denominada devido à principal atividade económica: a exploração, extração e transformação de mármore. Um ciclo em que a água é fundamental em todas as fases e um elemento que não só transforma como se transforma.

É graças à água que se consegue amolecer a pedra, que é extraída das pedreiras, autênticas crateras a céu aberto, e cortada em blocos paralelepípedos de várias toneladas ou em chapas finas através de monolaminas afiadas. E é a mesma água, finda a vida e a atividade de uma das inúmeras crateras profundas que existem - deixadas muitas ao abandono – que se ocupa de preencher o vazio deixado pela pedra. Dando lugar a lagos, uns mais vertiginosos que outros, uns mais poluídos que outros, onde antes estavam precipícios. Inclusive quando ainda a atividade humana ainda não sessou já a água reclama o seu lugar, preenchendo os fundos vertiginosos que podem atingir cerca de 180m, aproximadamente 60 andares.
É também pelas marcas que deixa nas maquinarias e nos materiais que podemos ver ação do tempo e do abandono através da água, totalmente cobertos de ferrugem avermelhada e plantas selvagens que os envolvem. Estas são as pedras de água que captei com o sensor da minha máquina, autênticas minas de tesouro transparente pronto a ser reaproveitado, como em alguns casos já acontece, e impacientes por recomeçar um novo ciclo. Locais apocalípticos, variando entre gruas gigantescas, montanhas de natas – nome que se dá à massa de pó de pedra com água resultante dos cortes produzidos nos blocos -, aterros de pedra inútil, crateras gigantes e lagos idílicos. Pedreiras de água, que se transformaram por inércia humana, num local onde tantos anos escasseia o acesso a esse bem precioso.
 
© João M. Pereirinha 2013 | Vila Viçosa

Publicação do projeto fotográfico em #10 Série VI, Águas 1000 - Revista Via Latina, pp. 42-53
Colóquio “Pedras de Água”
 
Uma reflexão aberta e pluridisciplinar sobre  o estado, as perspetivas, a importância e a sustentabilidade da Indústria do Mármore, nas suas mais variadas vertentes, assim como agir perante recursos naturais. Composto pelos oradores: Ana Cardoso de Matos, Armando Quintas, Carlos Gomes, João M. Pereirinha, Sara Moreno Pires, Tiago Passão Salgueiro.
 
 
14 de Março, 2015, Escola Secundária Públia Hortênsia de Castro, Vila Viçoa.