O Jardim Piratininga, localizado no bairro da Penha, Zona Leste de São Paulo, é um local de muitas histórias, marcada pelos trilhos do trem que passam por ali, o mato e lagoas antes predominavam, mas hoje são os novos moradores que dão continuidade a essa história. O bairro é bastante populoso, e fica entre a linha do trem e a Estrada Ayrton Senna. Da rodovia percebe-se a quantidade de casa que foram sendo erguidas, na maioria das vezes, irregularmente. A feira aos sábados é o dia de mais movimento, reunindo os moradores na rua principal. Pelas ruas é muito comum ver os mandioqueiros descascando ou fabricando o que venderão na feira. Há também muitos bares e salões de beleza pelo local, mas o acesso ao bairro é difícil, por ele ficar para lá da linha do trem, há apenas três entradas, sendo duas delas bastante estreitas, por onde passa apenas um carro por vez.

Tivemos a oportunidade de observar o Jardim Piratininga de perto, e analisar como é viver por lá, conhecer histórias, estudar as questões sociais e assim descobrir como o Design poderia ser aplicado ali, ajudando e ouvindo a comunidade em suas queixas e problemas. Assim que começamos as pesquisar, as melhorias necessárias foram evidentes: reeducação cultural, otimização dos acessos para facilitar a saída para o trabalho e educação dos moradores, melhores condições sanitárias e outras questões sociais que afligem não só essa como muitas comunidades do país.

Então no decorrer das visitas, definimos o problema com o qual iríamos trabalhar e ele se deu em função do descaso do poder público, o desconhecimento pelos próprios moradores de bairros vizinhos ao Jardim Piratininga e o preconceito que está presente em grande parte das comunidade de São Paulo. A construção da linha do trem e do muro influenciam muito a percepção dos moradores, muitos deles se sentem "isolados", como se vivessem em uma ilha, o acesso restrito também está presente no discurso dos moradores. Além disso, percebemos que a visão de fora também não contribui para atenção do bairro, o muro esconde, e quem passa pela avenida e pela rodovia não percebe que ali há pessoas e uma comunidade. Assim definimos um problema principal: visibilidade, não apenas no âmbito visual, mas pela demora em trazer soluções por parte do poder público, a sensação dos moradores de exclusão da sociedade e o preconceito gerado em função dessas questões.
Estudamos todas as maneiras de sanar ou amenizar este problema e, depois de algumas ideias descartadas, escolhemos mostrar a realidade do Jardim Piratininga para o mundo afora, através de um projeto fotográfico, e fazer com que a circulação destas imagens, o resultado fosse uma ponte para a informação e o conhecimento e, principalmente, chamar atenção.
 
A princípio, escolhemos seguir um tema para as fotos trabalhando a auto-estima dos moradores. Primeiramente, fomos conhecer as crianças da comunidade, afim de melhorar sua auto-estima, usando ilustrações de super-heróis e personagens por cima da foto, mas a realidade que encontramos foi diferente da que esperávamos. Todas as crianças brincam juntas, criam suas próprias brincadeiras e estão sempre na rua, têm uma ótima socialização. Como mostra a primeira imagem abaixo. Também tentamos trabalhar a auto-estima das mulheres, porém, conversando com elas e percebemos que há, na verdade, orgulho de onde moram e se consideram muito confiantes de si mesmas.

Chegamos a conclusão de que os moradores não tinham problemas de auto-estima, mas orgulho de onde vivem, e gostam de muitos aspectos do lugar. Resolvemos abordar então, algo que reforçasse a identidade do Pira e, por fim, mostrar o que existe atrás do muro: pessoas, sonhos, vidas, sorrisos, pureza. Homens, mulheres, crianças, idosos. O lado bom do Pira!
Encontramos muitas crianças brincando nas ruas, passamos um dia inteiro as fotografando, nas fotos, algumas delas: Sabrina, Tami e Maxwel. Em outras visitas encontramos o Rodrigo (que foi nosso herói do projeto! :D), Alexandre, o figura da comunidade, a Dona Marta, que nos contou muitas histórias de como chegou na comunidade, e o Catari, que ficou muito curioso com o nosso projeto. No total, conseguimos um acervo de cerca de 1.000 fotos, selecionamos as que mais nos passavam expressividade e identificação com a comunidade e resolvemos aplicá-las em alguns suportes.
Em dado momento, julgamos necessário dar um nome ao projeto, juntamos Inspira + Piratininga e formamos o INSPIRATININGA. O logo foi pensado na linguagem de arte que os próprios moradores aplicam nos muros, que muitas vezes é o graffiti, daí os traços manuais, com aspecto de "brush". Também pensamos na sua aplicação como um carimbo, stencil, quando fôssemos "assinar" as peças.
 
Um hotsite e uma página no Facebook, foram os meios escolhidos para divulgar o projeto.
Para não deixar que as fotos ficassem apenas em formato digital, então escolhemos fazer de um dos suportes um livro, registrando as melhores fotos do projeto.
 
Ficha técnica
40 páginas
Suporte: couchê 180g
Formato fechado: 297mm x 210 mm
Acabamento: lombada quadrada; capa dura empastada; laminação fosca
Por último, mas não menos importante, precisávamos que o projeto realmente fosse visto pelos moradores e pela população, então utilizamos justamente a maior barreira física e contribuinte da falta de visibilidade da comunidade: O muro da CPTM. Fizemos uma seleção das 10 melhores fotos e aplicamos em forma de lambe-lambes de aproximadamente 1,20 x 2,00 m. Após aplicarmos, chamamos os moradores para se verem no muro, e as reações foram muito gratificantes. As respostas das pessoas que passavam também foram positivas, muitas pessoas tiravam fotos e pareciam curiosas. Registramos tudo no vídeo abaixo.
Inspiratininga
190
2560
18
Published:

Inspiratininga

O projeto fotográfico com o objetivo de levar para o outro lado do muro o que há de bom no Jardim Piratininga, localizado na Penha, Zona Leste - Read More
190
2560
18
Published:

Tools