Natureza Morta para Laura
Natureza Morta para Laura é um Happening. Se desenvolve como uma procissão, um desfile, uma celebração. Uma partitura repetitiva de diversas cenas, sobrepostas e consequentes que uma vez consumadas, serão diversamente rompidas e varridas em baixo da mesa, literalmente ou simbolicamente. São os restos de um espetáculo que nunca foi encenado. As obsessões, os erros, as melodias, as formas e as figuras, físicas e simbólicas do espetáculo natimorto se desenvolvem deliberadamente e sem escopo. São objetos e fenômenos subtraídos das funções e das finalidades originarias, pertencem a uma realidade “já feita”, são um ready-made, são pessoas e personagens deslocadas e dilatadas numa nova existência autônoma, movidas numa zona de livre criação, desligadas do seu contexto narrativo original, que desfilamos como num cortejo, ou um funeral, ou uma procissão mediterrânea para uma santa pagã. A ação que domina esse trabalho é a procura de Laura, que tem que se despedir, que tem que morrer até o fim da ação. A procura de Laura se realiza nos intervalos entre uma imagem e outra, mas a imagem nunca é definitivamente atingida. Não são ecos de uma história, mas fragmentos inexoravelmente presentes, inacabados, em si exauridos: “diversas formas do nada”.
 
O cortejo se encerra num espaço onde as diversas ações atuadas até então se repetem e se finalizam simultaneamente, numa polifonia de gestos e de sons que é ao mesmo tempo uma catástrofe e uma epifania.
 
 A imagem principal e terminal dessa ação criativa é uma Natureza Morta. A obra de referimento é um antigo mosaico romano, que se encontra hoje nos museus Vaticanos, o da Vigna Lupi, é um “Asarotos Oikos” que literalmente quer dizer “O piso que não foi varrido”. É um mosaico de chão que representa restos de comida, crustáceos, frutas, pernas de galinhas, reproduzidas de maneira hiper-realista. “Asarotos Oikos” foi um gênero ornamental de mosaico presente nas casas dos patrícios gregos e romanos. As obras eram comissionadas por evidenciar a opulência do proprietário e ostentar seu poder econômico, para placar a inveja dos espíritos malvados, e para cumprir a função pratica de esconder a sujeira da casa.
 
Laura é o fragmento mais vistoso dessa imagem, pela cor: vermelha, e pela presença: difusa. Laura é a protagonista do espetáculo que não foi encenado. Aqui é reproduzida pela mesma atriz em versões diversas, como se a atriz fosse à procura de uma forma que lhe tirasse do horizonte seu epilogo infeliz. O que sabíamos de Laura durante os ensaios é que devia morrer antes que o espetáculo acabasse. O que mostramos dela são as suas multíplices mortes. É Laura o  ready-made. Cada momento é subtraído a uma Laura diversa. Cada verso, gesto, historia que a atriz manuseia são copias clandestinas de Laura, aproximativas, mal feitas, de Lauras exemplares: são a Laura do poeta medieval Francesco Petrarca, ou a Laura do cineasta americano David Lynch. São fragmentos poéticos, pictóricos, televisivos, cinematográficos, publicitários, comerciais, mercantilistas que ela incautamente manuseia. Cada momento acaba com uma morte.
 
O espetáculo original foi pensado a partir de um romance: “Entre trem e a plataforma”, de Lucimar Mutarelli. A atriz Sabrina Greve escreveu o prefacio ao livro. A atriz Sabrina Greve ensaiou como protagonista ao longo de meses o espetáculo que nunca foi encenado inspirado no livro da Mutarelli. Ambas estarão no Happening: Sabrina como Laura-Protagonista, Lucimar como Autora-Amiga. A autora que escreveu Laura acompanha Laura.
 
Sonoramente pensamos num tecido rítmico continuo que acompanha o cortejo, dirigido por um DJ com um set eletrônico que se alterna com as repetições performáticas dos “personagens” – físicas e verbais.
 
O leitmotif temático, que volta em correspondência a cada morte de Laura durante o cortejo é a palavra TRAIÇÃO compreendida como evolução linguística da palavra Tradição, por sua vez originada da palavra latina “Tragere”, trazer, ou levar, algo particular, diferencial, uma mercadoria peculiar. A historia desta palavra uma vez sobreposta no decurso da historia da arte nos leva facilmente verificar quanto difícil seja hoje em dia propiciar de uma experiência artística desnorteante, “particular”, comparável às das diversas traições na arte do século XX, como as do Vsevolod Mejerchol'd (por sua vez traído pela revolução), tema fundante de “Hoje é o meu aniversario”, ultimo espetáculo de T.Kantor.
 
Laura é o simulacro da ausência, é a personagem sem papel, é o objeto vazio, é a cadeira de Oslo de Kantor, despojada de sua expressividade, de seu contexto, em cima de uma montanha sobre um fiorde. Laura é a presença traiçoeira, inconcebível da morte, é Laura a morte. 
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