Contos por Priscila Machado
          Iauriel tinha 9 anos. Era rechonchuda e suas bochechas rosadas estavam sempre cobertas por uma camada fina de terra seca. Adorava o jardim de sua avó Joana. Chorava copiosamente quando o sol se punha e era obrigada a entrar para tomar banho. Como forma de protesto, arrancava raízes e as trançava no cabelo, junto com folhas úmidas, flores mortas e pequenos insetos. Seu sonho era ser do tamanho de um besouro e poder morar no jardim, se escondendo debaixo da terra e bebendo água da chuva. De repente cresceu: tinha quase 30 anos. Era secretária de consultório odontológico, morava sozinha em um apartamento e seu jardim era um vaso de plástico com uma plantinha meio feia, comprado no hipermercado ao lado. Às vezes levantava de madrugada, ia até a planta e esfregava um pouco de terra no rosto. Isso a tranquilizava. Um dia o vizinho do prédio de frente estava acordado e viu. Ela não se importou. Certos hábitos não mudam. 
Priscila Machado
 
          Por trás das grades da janela do quarto paira uma paisagem nunca antes contemplada. Um céu carregado: fúcsia, vermelho e preto, pronto para desabar em lágrimas. Um seco pé de limão cobre parte da vista. Grandes círculos negros pendem dos galhos finos, frouxos e sem folhas. Não se sabe como a planta se mantém erguida. Lá bem de longe, uma luz vem chegando. Gostaria de acreditar que é o Natal, mas não tenho tanta certeza. 
Priscila Machado
 
          As palavras têm sono. Ponha todas elas para dormir. Cante uma canção de ninar, faça o que for preciso. Acorde-as em alguns dias. Não aceite palavras mimadas: risque-as fora. As exageradas, deixe viver por mais um tempo. Em certas ocasiões, exageros são aceitáveis. Necessários, até. 
Priscila Machado
          O vento denso batia no rosto de André, congelando suas orelhas e fazendo seu cabelo negro chicotear para todos os lados. Ele subia um morro alto e escorregadio, em direção a um casebre que se revelava no topo. Tomava cuidado para não tropeçar. Semana passada quebrou um dedo. Na retrasada, se apaixonou por Leninha, namorada de seu primo. Era um acidente após o outro. Seguia torcendo para que sua onda de má sorte tivesse um fim. Hoje mesmo foi atropelado por um caminhão. Nunca mais teve azar. 
Priscila Machado
          Majestosas labaredas erguiam-se no topo da montanha Hur. O vento carregava e soprava cinzas e tudo cheirava a fumaça: as mãos, as roupas, a refeição. Era noite e Lúcio passeava com seu lagarto fêmea, companheiro de estimação. Os dois comiam batata frita e frango. Era a janta predileta de Jasmine, apesar dela nunca recusar formigas. A brisa fresca exalava calma e monotonia, mas Lúcio sabia que o dia não acabaria assim. Fogueiras em morros nunca significaram coisa boa. Até Jasmine sabia disso (sem ofensas, ela é um lagarto muito inteligente). Pode ser um anúncio de guerra. Ou talvez são só seus amigos da montanha fazendo churrasco. Jasmine silenciosamente torcia para que fosse a primeira opção. Ela odeia carne bovina. 
Priscila Machado
          Manuelita foi um jabuti enérgico e peçonhento. Há incoerências nessa frase, mas não se preocupe. Todos estavam muito ocupados para perceber, então ela se descrevia assim. A pobrezinha nunca saiu do aquário do petshop. Teve uma vida breve e cheia de desgostos. Se somos todos histórias no final, Manuelita é só um verso triste e sem rima, cheio de erros de português.
Priscila Machado
Contos por Priscila Machado
16
203
7
Published:

Contos por Priscila Machado

Contos
16
203
7
Published:

Creative Fields