THE OLD WOMAN (IT/ENG/EUA)
 
 
 
Nota do diretor
 
Por muitos anos, Misha e eu discutimos sobre criar um trabalho juntos. Uma de nossas ideias era usar um texto russo. Alguns anos atrás, Wolfgang Wiens sugeriu The Old Woman. Nenhum de nós dois conhecia a obra de Daniil Kharms, mas, assim que a lemos, gostamos da ideia.
Achei que Darryl Pinckney seria a pessoa perfeita para fazer a adaptação. Darryl é meu amigo e colaborador há muitos anos e conhece muito bem meu trabalho. Ele concordou em fazê-lo e tinha uma primeira tradução e adaptação dramática em pouco mais de três meses. A Change Performing Arts e a Baryshnikov Productions concordaram em produzir o trabalho e o MIF (Festival Internacional de Manchester) o comissionou e produziu, em parceria com o Festival de Spoleto na Itália, o Théâtre de la Ville/Festival d'Automne em Paris e o DeSingel na Antuérpia.
No verão de 2012, fizemos um workshop em Watermilll Center durante alguns dias para encontrar uma direção para a produção e para ajudar a mim e a Misha a entender os nossos modos de trabalhar. Então, na primavera de 2013, comecei os ensaios em Spoleto com quase nenhuma ideia do que fazer: eu não tinha decidido quem falaria qual texto, ou mesmo como seria o cenário. Comecei a dar forma à peça em termos de luz, cenário e movimento, e passei a inserir o texto devagar. Trabalhei com todos os elementos ao mesmo tempo.
Geralmente começo com a luz e depois o movimento, adicionando elementos de texto e áudio posteriormente. Eu esboçava uma cena, então passava à cena seguinte e via o que diferia do que se passara antes. Finalmente, tendo um esboço para todo o trabalho, volto ao início e começo a fazer alterações e adicionar mais detalhes. Por fim, trabalho com maquiagem e figurinos, e defino a construção do tempo-espaço. Geralmente movo as coisas de um lugar a outro até que as partes pareçam dar apoio ou complementar umas às outras. Como não há uma narrativa linear, pode haver uma certa liberdade para construir e desconstruir.
Eu escolhi os dois atores, Misha e Willem, pois acho que eles se complementam com suas diferentes personas. Penso nos dois como um só: o escritor. E durante o decorrer da peça, eles se transformam: A se torna B e B se torna A, porque A e B formam um todo, não duas unidades. 
 
Robert Wilson
 
 
 
 
 
 
 
Trabalhar com Bob Wilson não é uma tarefa fácil. O processo de ensaio é intenso e exigente e requer uma versatilidade que eu nunca tive de usar antes. Num minuto você é um ator de cinema mudo, no outro de vaudeville, no próximo de teatro Nô. Isso se soma à precisão da encenação e do desenho de luz de Bob. Num certo sentido é restritivo, mas, no fim das contas, ele dá aos intérpretes liberdade para encontrar os extremos que está buscando. 
É claro, Willem Dafoe, um ator multifacetado e incrivelmente arrebatador, me ajudou a decodificar a abordagem quase pictórica do processo criativo de Bob. Ele já havia trabalhado com Bob e me ensinou muito sobre um certo tipo de paciência.
Eu acho que The Old Woman de Daniil Kharms é uma peça brilhante da literatura do Absurdo. Nas mãos de Bob Wilson e sua talentosa equipe de criação, junto com um companheiro de cena extraordinário (eu sou o novato nessa combinação), tudo que precisamos é do público e aí vemos o que acontece. 
 
Mikhail Baryshnikov
 
 
 
 
 
 
Ouvi Bob Wilson dizer recentemente que uma coisa que ele aprendeu através dos anos é “entrar na sala de ensaio sem ideias, com um caderno em branco”.
Em vez de tentar fazer o que está em sua cabeça, ele prefere ver o que há no ambiente, ouvir o texto, escutar a música, jogar com a luz do espaço e com os elementos cênicos, e criar uma estrutura para os atores. 
Por mais refinado que seja o seu teatro, não há nada pedante em sua abordagem.
Quando Bob propôs The Old Woman, eu sabia que trabalharia ao lado do legendário Mikhail Baryshnikov (a quem admiro desde jovem), mas não estava claro que personagem eu iria interpretar. O texto era dividido simplesmente entre dois intérpretes, “A” e “B”. Perguntei a Bob quem era “A” e quem era “B” e ele disse que ainda não sabia.
Em The Life and Death of Marina Abramovic, no início, havia uma ambiguidade similar em relação ao que seria meu papel ou função. No final, foi tão inspirador e eu gostei tanto de trabalhar com Bob, que decidi me aventurar no trabalho em The Old Woman.
É sempre misterioso fazer parte de um trabalho original. Como Bob diz, “Se você sabe do que se trata, qual o sentido em fazê-lo”? 
 
Willem Dafoe
 
 
 
 
 
 
Kharms Invisível
 
Daniil Kharms nasceu em São Petersburgo em 1905, o ano do sangrento massacre em frente ao Palácio de Inverno, e morreu na mesma cidade, que seria posteriormente chamada de Leningrado, em 1942, quando ela estava sob cerco. Dizem que ele teria morrido de fome na prisão. Em certas fotografias, ele se parece com o que Maiakóvski teria se tornado caso não tivesse se matado. Olhar para as fotos de Kharms, muito magro e de olhos arregalados, nos faz lembrar que ele passava por tempos difíceis antes de ser preso em 1941. Kharms fora preso antes, em 1931, quando a autoridade soviética pôs a vanguarda artística na ilegalidade. Maiakóvski suicidou-se com um tiro em 1930, sinalizando o fim da experimentação artística sob a Revolução. No ano seguinte, Pasternak lamentou “o veludo negro de seu talento” em Salvo-Conduto e interrompeu qualquer comunicação com Stalin. Kharms também se refugiou na literatura infantil, ele que, diziam, desprezava as crianças. O disfarce não funcionou; sua última década foi marcada por ameaças. Se havia guerra à sua volta quando morreu, ele também tinha amigos na cidade sitiada.
Um deles arrastou uma mala com seus manuscritos de seu apartamento e a manteve escondida até os anos de 1960.
Até o fim da Guerra Civil nos anos de 1920, Kharms tinha sido um dândi, um jovem de modos rápidos e exuberantes que flanava pela cidade. Sua presença era uma espécie de arte performática. Kharms atingiu a maturidade artística naquele último momento de liberdade cultural, quando havia ainda algum otimismo sobre a revolução, porque, apesar de a violência bolchevique ter se transformado em poder de estado, os comissários ainda não haviam decidido o que fazer com a cultura. O vigor e a alegria da juventude deixavam para trás a Primeira Guerra Mundial e seu legado de carnificina. O humor do Absurdo salvou artistas como Kharms do cinismo, que tornava a Era do Jazz desesperadora para tantos na Europa. Mas, então, a leveza de Kharms e seu estilo ágil e quieto talvez tenham vindo de seu conhecimento interior sobre o que estava por vir. Afinal, ele havia crescido com a história da Rússia. Seu pai tinha sido membro do Vontade do Povo, o grupo terrorista que assassinou Alexandre II em 1883. O governo imperial executou milhares de terroristas no final do século XIX e início do XX, do mesmo modo que os terroristas executaram milhares de oficiais do império no mesmo período. A obra de Kharms apenas parece inocente e cômica – todos aqueles acidentes bizarros e toda aquela violência caricata. Inconscientemente, ele sabia algo sobre o impulso assassino súbito e sem sentido. Suas histórias e poemas não são declaradamente de oposição ou protestos cifrados, mas sua escrita lembra mais ervas crescidas nas rachaduras das calçadas – ali, apesar de tudo, surgindo do peso do tráfego humano. Suas histórias são curtas, muitas vezes meros parágrafos, e o que acontece nelas pode ser uma sucessão repetida de nonsense. Tudo nelas dá a impressão de improvisação, de aleatoriedade, de instabilidade: frágeis como a própria vida. Estas obras não são necessariamente retratos do indivíduo deformado pelo governo totalitário. Elas não são Kafka; não têm o interesse dele nos sistemas. Em vez disso, elas falam do desamparo de se estar vivo, das propriedades da consciência, de como a mente continua a pensar, a desejar e a viver, mesmo em meio ao pesadelo. 
 
Darryl Pinckney
 
 
 
 
 
 
Robert Wilson / Mikhail Baryshnikov / Willem Dafoe
    
THE OLD WOMAN
A VELHA
 
Direção, cenário, conceito de luz Robert Wilson
com Mikhail Baryshnikov e Willem Dafoe
 
de Daniil Kharms 
Adaptado por Darryl Pinckney
Música Hal Willner 
Figurinos Jacques Reynaud 
Desenho de luz A.J. Weissbard
Colaboração em cenário Annick Lavallée-Benny
Desenho de som Marco Olivieri
Assistente de direção Charlie Otte
Dramaturgista Tilman Hecker 
Direção de palco Jane Rosenbaum
Direção técnica Reinhard Bichsel
Supervisão de luz Marcello Lumaca
Técnico de palco Chris McKee 
Operadores de canhão seguidor Roberto Gelmetti / Elisa Bortolussi
Assistente de figurino Micol Notarianni
Assistente de direção de palco Louise Martin
Maquiagem Marielle Loubet / Natalia Leniartek
Coordenação de produção Simona Fremder
Tradução da peça Leila Guenther
Fotos © Lucie Jansch
Relações Públicas e comunicação Maristela Gaudio
Produção executiva Change Performing Arts 
diretores Franco Laera / Elisabetta di Mambro  
em colaboração com Baryshnikov Productions e CRT Centro Ricerche Teatrali
 
Um projeto de Baryshnikov Productions, Change Performing Arts e The Watermill Center Comissionado e coproduzido por Manchester International Festival, Spoleto Festival dei 2Mondi, Théatre de la Ville-Paris/Festival d’Automne à Paris e DeSingel Antwerp
 
 
Espetáculo em russo e em inglês com legendas em português
Duração: 1h40
Realização: Sesc – Serviço Social do Comércio / Produção no Brasil: prod.art.br / Direção de produção: Ricardo Muniz Fernandes / Administração de produção: Matthias Pees / Coordenação de comunicação: Carminha Gongora / Produção executiva: Daniel Cordova / Direção técnica: Júlio Cesarini / Coordenação de luz: Ana Cristina Irias / Coordenação de som: Rodrigo Gava / Técnicos de iluminação: Rodrigo Campos e Patrícia Savoy / Cenotécnicos: Wanderley Wagner, Willian Zimolo, Enrique Casas, Lara Bordin e Roberto Rodrigues / Maquinista: Paulo Ricardo / Assessoria de imprensa: Pool de Comunicação / Design gráfico: Érico Peretta e Isabela Sanches
 
THE OLD WOMAN (IT/ENG/EUA)
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Robert Wilson Mikhail Baryshnikov Willem Dafoe
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