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Uma bandeira para Beagá
Tecnicamente, Belo Horizonte já tem uma bandeira. Mas só tecnicamente. Se for pedir para qualquer belo-horizontino desenhar ela de memória é bem provável que a pessoa vá apertar os olhos para, com muita dificuldade, tentar buscar alguma lembrança da tal bandeira.

A bandeira atual, instituída pela lei municipal nº 6938 de 1995 / link /, é apenas uma aplicação do brasão da cidade sobre um fundo branco, como o próprio texto da lei deixa bastante claro.

Os princípios que guiam a construção de um bom brasão, entretanto, são muito diferentes dos que guiam a construção de uma boa bandeira.

A complexidade do desenho é bem vinda nos brasões, onde ela ajuda a dar um aspecto de seriedade e legitimidade a documentos oficiais, por exemplo. Em uma bandeira, que deve ser vista e identificada de longe, mesmo quando dependurada em um mastro, em um dia de pouco vento, a complexidade só atrapalha.
A bandeira de Beagá apresenta elementos que não dizem respeito à cidade diretamente / 1 e 2 / ou que não são relevantes para uma bandeira / 4 /.
Além disso, o desenho dos elementos possuem um desenho muito complexo e irregular / 1, 3 e 4 /, que dificultam a sua reprodução.
Se pegarmos os ‘5 princípios básicos para se desenhar uma boa bandeira’ que Ted Kaye apresenta no livro “Good Flag, Bad Flag”, publicado pela Associação Vexilológica Norte-Americana, veremos que a bandeira de Beagá falha em quase todos: 1. simplicidade, 2. simbolismo claro, 3. poucas cores, 4. evitar frases e emblemas, 5. ser distintiva.

O próprio Ted Kaye tem duas citações ótimas / link / que resumem bem o tópico:

Bandeiras devem ser simples, a ponto de que uma criança consiga desenhá-la de memória / Se você precisa incluir o nome daquilo que você quer representar na sua bandeira, significa que seu simbolismo não está funcionando.
Apesar de muito contra-indicado do ponto de vista vexilológico, o modelo ‘brasão sobre fundo branco’ é muito comum em bandeiras municipais.
O resultado é que, quando reduzidas, fica difícil distinguir as bandeiras de Vitória, Porto Alegre, ou Belo Horizonte, por exemplo.
De forma geral, as bandeiras dos estados possuem uma simplicidade e um simbolismo adeqüado.
O brasão da cidade é ótimo, é bom deixar claro. A questão é que brasões não costumam funcionar bem em bandeiras.

O primeiro brasão de Belo Horizonte foi proposto pelo arquiteto da Comissão Construtora da Nova Capital, José de Magalhães, em 1895, 2 anos antes da inauguração oficial da cidade. O brasão atual é, basicamente, uma atualização do desenho original para os padrões contemporâneos, com desenho perfeitamente adequado para o seu propósito.
Algumas variações do brasão de Belo Horizonte ao longo dos anos.
No canto superior esquerdo, a 1ª versão, de 1895, e no canto inferior direito, uma proposta alternativa feita em 1933.
As demais versões foram extraídas de mapas oficiais da cidade, encontrados no acervo do Museu Histórico Abílio Barreto.
Para citar Ted Kaye uma última vez: em toda bandeira ruim existe uma bandeira boa tentando sair. A bandeira (ou melhor, o brasão) de Belo Horizonte, pra nossa sorte, não foge à regra.
Ao simplificarmos o brasão, tirando dele todas as informações que não são relevantes para uma bandeira, ficamos somente com os elementos que realmente representam a cidade: o Céu, o Sol, e a Serra, formando o tal do belo horizonte que dá nome ao município.

Voltando à crítica inicial feita à bandeira atual, a única questão que ainda precisaria de ser resolvida após a simplificação do brasão é a do desenho irregular e com aspecto manual, que dificulta a reprodução da bandeira.

O próximo passo para chegar em ‘uma (nova) bandeira para Belo Horizonte’ foi então, justamente, uma tentativa de simplificação do desenho do pôr do sol na Serra do Curral, presente em todas as versões do brasão oficial da cidade.

Para cada elemento foram geradas algumas alternativas de desenho, a fim de poder testar diferentes combinações e, assim, poder avaliar qual delas apresentaria a melhor configuração para os objetivos do projeto.
O desenho 1 é uma atualização do desenho do sol presente no brasão atual, com ajustes para que tanto os raios de sol curvos quanto os retos tivessem o mesmo peso aparente. O 2 mantém a mesma estrutura do 1 / 16 pontas /, mas com um desenho mais geométrico que facilita sua reprodução. O 4 é uma simplificação extrema do sol (como ocorre na bandeira do Japão, por exemplo), enquanto o 3 um meio termo entre ela e o anterior. O 5, por último, é uma atualização simplificada do desenho presente nas versões mais antigas do brasão.

As versões com numeração dupla trazem os mesmo desenhos da numeração única, porém com uma diferença de escala e posicionamento.
Para a Serra, as versões com uma única letra trazem uma estrutura geométrica simplificada, usando apenas linhas retas. As versões com letra dupla, por sua vez, partem da mesma estrutura base, mas com arestas arredondas que emulam o desgaste geológico, ajudando a deixar o desenho com cara de ‘serra’, ao invés de ‘montanha’.

De início, na letra A, temos a representação mais simples da idéia de serra / montanha / aclive. Entre B e E, temos variações na quantidade de ‘picos’, enquanto entre F e I a mesma variação é repetida, porém com alteração no tamanho dos seus ‘vales’. Por fim, na letra J, uma representação mais próxima da idéia de ‘horizonte’, que acaba deixando a idéia de ‘serra’ em 2º plano.

Combinando todas as variáveis, podemos então avaliar as alternativas para tomar uma decisão mais consciente.
Dentre todas as alternativas geradas, ressalto algumas das favoritas, com seus pontos positivos e negativos. A GG22 se saiu bem no quesito ‘representar o pôr do sol na serra’, mas acabou ficando um pouco pictórica demais para ser bandeira. A J22 possui uma ‘bandeiridade’ excelente, mas a linha reta dá margem para que a serra seja interpretada como ‘planície’. No fim das contas, não por acaso, a escolhida foi a versão A1, que mistura / A / uma representação abstrata de ‘serra’ simples o suficiente para ser desenhada por qualquer pessoa com / 1 / um sol baseado no desenho presente no próprio brasão da cidade, mantendo uma relação forte entre os seus dois principais símbolos oficiais.
Para as cores, mais importante do que escolher um Pantone específico, o importante em um projeto de bandeira é escolher a ‘idéia’ das cores. Ficamos então com o ‘Verde-Serra’, ‘Azul-Céu’, e ‘Amarelo-Sol’.
Na geração de alternativas foi usada uma variação das cores presentes no brasão, com ajustes nos tons para melhorar o contraste devido à ausência do contorno preto. Na prática, por se tratar da mesma combinação de cores da bandeira do Brasil, as cores usadas para a bandeira de Belo Horizonte vão acabar sendo as mesmas que estiverem sendo usadas para a bandeira do país.
Por fim, depois de definir cores e formas, era necessário fazer um último teste: produzir uma bandeira no método tradicional, com tecido recortado e costurado.
Enquanto símbolo visual representativo de um grupo ou território, o potencial das bandeiras é enorme. Na breve história de Belo Horizonte, e na insuficiência de seus símbolos oficiais, podemos encontrar alguns símbolos não-oficiais adotados pela população para expressar sua relação com a cidade.

Nos anos 2000, por exemplo, tivemos a campanha “eu amo BH radicalmente” / link /, enquanto nos anos 70 os adesivos de “olhe bem as montanhas” / link /, de Manfredo de Souzanetto, já chamavam a atenção para os perigos da mineração. Em 2022, ainda faz-se necessário a mobilização da população em torno da Serra do Curral, já que mesmo após inúmeros avisos / link /, e outros tantos crimes ambientais / link /, a mineração continua ameaçando o principal símbolo da cidade / link /.
Bandeira disponível sob licença CC0
Parafraseando um filme clássico dos anos 2000, se é que isso existe, um símbolo só tem valor quando compartilhado. Quem quiser baixar, imprimir, editar, redesenhar, ou se apropriar dessa bandeira de qualquer outra forma, fique à vontade. Os arquivos desenvolvidos no projeto estão todos disponíveis de forma gratuita e irrestrita / link /.
Uma bandeira para Beagá
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