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Ty Ty – memórias de beija-flor
Ty Ty – memórias de beija-flor
Ty Ty – memórias de beija-flor
Denilson Baniwa


Acordei às cinco da manhã antes do sol
Gosto de ver ele nascer e queimar o céu

colocaram uma placa no alto da cidade
onde posso ler um feitiço

“se você viver isso, não precisará de mais nada”

Esta frase me deixou triste

e meu coração acelera e meus olhos fecham
e sinto que queria viver a cidade de cabeça pra baixo

Minha avó deixou sua aldeia quando tinha a minha idade
Ela desceu o Aiari e feriu uma árvore com uma bala

Com seus olhos de carvão, carbono quatorze

Ela me diz: não olhe pra trás meu filho

Você precisa ser forte
Se precisar, estarei aqui
Você precisa ser forte
Segure a minha mão


A cidade me acorda com um relógio de camelô
Em meus dedos um anel de descompromisso
Todo mundo está procurando alguém pra culpar

Se você, bem se você

Às vezes não há muito o que fazer
Ao lado daquela livraria eu gostaria de tomar um banho de chuva
Fechar meus olhos neste frio paulistano 
E imaginar que estas lojas em promoção
Vendessem milhões de sementes

Que nós
Eu e você

Num dia chuvoso e gelado
Onde só coubessem nós na rua

Pouco a pouco
Metro a metro

Plantaríamos uma floresta

Mão da mata e não mão do mato

Hoje eu queria cavar entre os paralelepípedos

e germinar uma floresta

eu e você

araçá, cupuaçu e banana
caju, cipó, cará
jerimum, taboca e bacuri
pimenta, sororoca, tajá

coca, tabaco e mariri

e continuaríamos a plantar

feijão, amendoim, cumaru
buriti, açaí e jauari

tucumã, tucum, jupati e uxi

macaxeira, aguapé, taperebá
taioba, samamúma, jenipapo
uixi, abiu, maniva e patauá

paxiuba, muirapiranga, inajá
milho, jaca e urucum
urupé, seringueira, cravo e ingá

faríamos um território floresta
derrubaríamos construções

abro os olhos e o outdoor continua lá
e eu sozinho na cidade
onde prédios são grandes colmeias sem abelhas
cobras-canoa de metal carregadas de gente sem identidade própria

contando o tempo pra não se atrasar
mas sempre com parcelas atrasadas 
boletos a pagar

o outdoor continua lá
carrego sementes no bolso,
memórias de beija-flor
e saudades no coração

lembro de você e da minha avó
jogo sementes no solo acimentado
esperando que alguma, 
assim como eu, brote no árido
a resistência pela persistência

se conseguirmos fincar nossas raízes
se nossa semente vingar neste solo

o outdoor é passageiro, efêmero
“se você viver isso, não precisará de mais nada”
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