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O Concerto de Colónia

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  •  Romance

    Esta é uma história dos nossos tempos.
    Sérgio é um homem improvavelmente feliz. Mas é um dia fintado pela vida. A uma “injustiça divina” reage num deixar-se levar, em desviver emocional, numa série de relações inconsequentes e superficiais, de facto não mais que uma vertigem de estreitamentos não mais que físicos.
    Até encontrar uma mulher que não vê - mas sente plenamente - em palavras tecladas num computador. Uma viagem por palavras assim, acaba por se tornar para Sérgio uma revelação interior.
    Não será este o poder do amor?

    -

     Primeiro Capítulo

    "Quando era quase uma da manhã, Sérgio levou aos lábios um copo com Cutty Sark e gelo, enrolou o whisky na língua e depois atravessou a sala até ao sofá; afundou-se aí com um portátil no colo. Antes tinha aberto a janela para deixar entrar o ar fresco na sala cheia do fumo de tabaco e cheiro a homem sozinho; no céu vira de relance uma estrela cadente que não lhe prenunciou nenhum desejo.
    Os seus olhos também não se detiveram na lua.
    Não era só o luar que lhe passava despercebido: Sérgio não reparava muito na sua vida – nem na dos outros. Vivia em distracção, num encolher de ombros e “que se lixe”. A vida apenas ia passando por ele.
    Pareceu-lhe ouvir um som em tilintar, como se alguém tentasse meter uma chave do lado de fora da porta. Mas não seria mais que um zumbido dentro da sua cabeça; ninguém partilhava com Sérgio o enorme apartamento.
    A sala agora às escuras, servia-lhe essencialmente para beber, fumar, ligar-se à net, enterrando estupidamente o tempo, e ver filmes em dvd, projetados num ecrã gigante. O plasma deixava-o ligado para olhar a televisão, muito de vez em quando.
    O sofá no meio da sala era em pele, com botões no braço direito que faziam reclinar as costas e estender as pernas, com o bzzz dum motor eléctrico. Nessa espécie de casulo, o homem recolhia-se para teclar um computador, driblando mulheres em salas de chat, durante meia hora ou várias horas seguidas, conforme o seu tédio, um maço de cigarros e um copo sempre à mão.
    Através da rede, Sérgio deixava palavras pretensamente ternas, em frases ridículas, que alguém que nunca tinha visto leria num outro computador, em qualquer lugar, longe ou perto de si.
      - Em ternura, te deixo um beijo nestas palavras que escrevo...
    Depois, as palavras iam crescendo em sensualidade. Com frases em forma de carícia, despia e possuía quem lhe respondesse.
    Seriam provavelmente mulheres que o liam e lhe respondiam mas obviamente poderiam não ser: talvez velhos, adolescentes ou tarados. Sérgio estava-se borrifando.
    Estar ligado à net, num programa de chat, onde se encontram pessoas perdidas no espaço e na sua solidão, era para Sérgio um vício, uma forma de ser perversamente voyeur, mas também uma forma de se sentir ele próprio acompanhado na travessia da noite, sem a obrigação de um sorriso, duma inflexão especial na voz, sem uma efectiva carícia que não lhe apetecia, assim abrigado no conforto da sua sala e no seu anonimato.
    Fora da net, outras mulheres, bem palpáveis, havia na vida de Sérgio; a estas nunca deixava palavras de ternura – ou apenas as mínimas necessárias, tão costumeiras como insinceras. Eram as amigas muito ligeiras, com quem efectivamente tinha sexo sem fazer amor. Muitas mulheres mas não uma mulher.
    Estas mulheres, engatava-as ele por aí, em festas a que ia e onde elas estavam sozinhas, em discotecas da moda, sítios onde dançavam tristes e sós e ele começava a noite acompanhado apenas por um copo. Depois deixava-as ou elas desapareciam. Sérgio dava-lhes o seu corpo, não a alma, como elas faziam também. De resto não sabiam nada dele – para além de que era um trintão atraente, vestia caríssimo e guiava um BM Z3 verde escuro; Sérgio nunca as levava a sua casa.
    Sabiam-lhe era a totalidade do corpo, sentindo-lhe, com o cheiro e com os lábios, o suor perfumado. Eram as boazonas, as mulheres vestidas de forma pornográfica. E dadas.
    Umas pegas.
    Luís costumava bater no ombro de Sérgio e chamar-lhe “sacana” com um sorriso de amigo de sempre.
    Na net, pessoas com nicknames femininos como Serena29, BelaDiscreta, Gira31, melavam-se nas palavras adocicadas que Sérgio escrevia, inventando um amor frustre, despido de cheiro ou de toque. Pelo menos, Sérgio sentia um agradável frémito na idealização e na invenção de palavras de encanto e tinha ali uma companhia descomprometida, alguém que poderia deixar sempre, com um desligar dum botão, sem mais explicações.
    Até aos vinte e sete anos escrevera outras coisas, ensaios sobre edifícios e espaços. Agora tinha trinta e quatro anos e sacudia-se da vida.
    Nessa noite de calor, já às quatro da manhã, uma mulher com o nick EuMesma ansiava por saber mais sobre Sérgio:
    - Diz-me quem és... As tuas palavras deixam-me fora de mim...
    Aflorou um sorriso nos lábios de Sérgio; inspirou o fumo de um cigarro enchendo o peito e escreveu:
    - Hmmm... Nunca seremos, um para o outro mais que este fascinante mistério de não saber...
    Depois desligou porque estava farto da gaja. Levantou-se e reparou que a televisão emudecida – a sala enchia-se com o trompete de Miles Davis - continuava a debitar as imagens do atentado desse dia nas Torres Gémeas de Nova Iorque. Sérgio mordeu os lábios, detestou-se mais um pouco quando se apercebeu que a tragédia pouco lhe importava.
    Por outro lado, recordou obviamente o fim de tarde, noutro tempo e quando ele próprio era outro, em que tinha estado aí, no terraço do alto do mundo, antes de jantar no restaurante Windows on the World, olhando Nova Iorque; no seu abraço estava então a mulher certa.
    Estendeu-se no sofá de pele, desligou a televisão, ouviu uma balada triste e belíssima de Nina Simone. Ainda ouviu os “Improvisos” de Schubert que acompanhou com um último whisky e adormeceu amarrotado no sofá quando era já madrugada."
  •  Jorge Pedra nasceu no Porto, em 1960.
    No início da actividadeprofissional foi médico. Atraiçoou aMedicina com a licenciatura em Arquitetura, em 1995, profissão que exerce desdeentão.
    Dedica-se também àFotografia e à Pintura- tendo participado em múltiplas exposições coletivas erealizado algumas individuais.
    Escreveu alguns contos,entre os quais uma série de textos infantis, ainda não publicados.
    “OConcerto de Colónia” é o seu primeiro romance.