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Lugar sem Nome/ No name place

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  • TERRITÓRIOS ÍNTIMOS vs NÃO-LUGAR
     
    “O tempo era bom? Nao era.
    O tempo é, para sempre.
    A hera da antiga era
    Roreja incansavelmente.”
    Carlos Drummond de Andrade, Duração,in As impurezas do branco
     
    O que percebemos quando vemos um lugar desconhecido e que ao mesmo tempo parece comum? Que sentimentos são suscitados quando observa-se a imagem de um lugar vazio em que o tempo mostra a inflexibilidade de sua ação? 
     
    Realizadas recentemente em um prédio hospitalar em desuso (Franco da Rocha - São Paulo), este trabalho propõe o registro, não de um espaço novo e intacto, quase estéril, mas de um espaço que foi projetado, concebido, utilizado e abandonado. São retratos da morte de um lugar: não a morte física, uma vez que o prédio e suas salas ainda estão ali; mas uma morte simbólica, na qual a utilidade daquelas paredes e objetos se perderam na estaticidade presente e na memória de quem ali esteve. São coisas imóveis que conjugam poucos elementos visuais com a simplicidade das linhas que formam uma perspectiva quase óbvia. 
     
    Um local onde neutralidade e limpeza, comuns a ambientes hospitalares, se contrapõe à poeira do abandono. Há uma quietude e o assombro dos espaços vazios que se une àquilo que os ambientes hospitalares geram no imaginário: um misto de esperança e repulsa, onde o tratamento necessário para a sobrevivência material  conflitua com o indesejável sentimento de estar ali. 
     
    Um deslocamento provocador solitário permeou o momento deste trabalho: a cadeira enquadrada pela porta, o leito hospitalar jogado no canto de uma sala vazia, os objetos empilhados e inutilizados confrontam-se com a quietude das salas e com as texturas das paredes descascadas pela ação do tempo.
     
    Nas salas coexistem elementos plenos de seus significados que confrontam o cenário de esquecimento em outro momento, algo que busca a percepção daquilo que não está visível e que foi esquecido, como um baú que só existe na memória de quem ali esteve. 
     
    Esse é um espaço efêmero, que não cria laços afetivos, uma vez que foi um lugar de passagem para aqueles que por ali estavam ou trabalhavam. Findada sua utilidade, o espaço sofre o abandono e a ausência da vida salva e da lembrança do que ali ocorreu: sensações que se descrevem em paredes, no piso empoeirado, nas janelas estilhaçadas, no mobiliário inerte, nas portas apodrecidas; a tradução da angústia através da solidão dos objetos, outrora repletos de utilidade e que agora guardam para si somente seus  significados. A presença humana é marcada pela ausência, tanto de pessoas quanto de ações recentes. São locais que fazem parte de um território desconhecido pela cultura do descarte e do esquecimento, um não-lugar perdido na memória de quem passou por ali.